Edouard Fraipont/Divulgação
Edouard Fraipont/Divulgação

Você sabe o que é uma fruta Gogoia?

Thelma Bonavita evoca o folclore baiano em sua nova e lúdica criação

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2010 | 00h00

Tiazinha, feiticeira, mulher melancia. Thelma Bonavita escolheu outra fruta para fazer sua mais recente produção, Sou Fruta Gogoia em 3 Tendências - Projeto Transformers. Flash back: 1971, LP Fa-tal, Gal a Todo Vapor, primeira faixa. Aquela voz que abre um mundo inundado de luz canta "Eu sou uma fruta gogoia/ Eu sou uma moça/ Eu sou calunga de louça/ Eu sou uma joia/ Eu sou a chuva que molha/ Que refresca bem/ Eu sou o balanço do trem/ Carreira de Troia/ Eu sou a tirana boia/ Eu sou o mar/ Samba que eu ensaiar/ Mestre não olha". Do folclore baiano para o mundo.

Vinte e nove anos depois, no palco onde aconteceu o Rumos Dança 2010, Thelma Bonavita, em uma flechada certeira, pergunta: "O que é uma fruta gogoia?" E, com estas seis econômicas palavrinhas, faz uma síntese tipo "direto no queixo" e nos derruba. Nocauteados na lona, aos poucos, vamos percebendo que a nossa percepção está anestesiada e nem nos damos conta disso. Aos poucos, vamos percebendo que não percebemos o que tem se passado por aqui, aqui perto, aqui mesmo.

Na primeira cena, ela entra pela plateia e pede ajuda para flutuar. Pessoas do público se levantam para colaborar e montam instantaneamente a imagem da superstar que se joga nos braços dos fãs. Aqui, o movimento é inverso: são os "fãs" que a "jogam" no palco. Assim, pela inversão, começa a primeira das três tendências que serão mostradas, a que fabrica as imagens fantásticas, lúdicas. Depois, será a vez da sopa de pedras.

Nessa parte, trechos de textos variados são convocados para o papel de pedra nessa sopa. Não se trata mais de continuar a velha discussão sobre autoria, mas sim de uma rasteira precisa nos modos como esse assunto vem sendo trabalhado. Thelma faz soprar uma rajada forte quando transforma citações em parangolés para serem vestidos, tal como propunha Hélio Oiticica no contexto das artes visuais, quando se deteve na questão do corpo. Será a terceira tendência, mais adiante, a que vai dedicar-se ao transbordamento, que clareará a sofisticada operação em curso já na segunda tendência, ao vestir corpo e ambiente com pedaços de objetos, roupas, acessórios, plantas, etc.

Segunda parte. Mas antes, enquanto ainda estamos na segunda parte (que ela chama de transitiva), algo de precioso acontece: as citações vão sendo despegadas da sua função, vão sendo resgatadas do limbo em que hoje se encontram. De repente, conseguimos reconhecer que nesse mundo do "beijo-me-liga" em que vivemos, um mundo firmado pelo não vínculo, citar os autores certos nos ambientes certos se transformou em senha de acesso. Sabemos, sim, reconhecer quase todas, mas não sabemos responder à pergunta que Thelma continua a repetir, ao longo do seu trabalho: "Alguém sabe o que é uma fruta gogoia?"

Marcelo Evelin, artista da dança que iniciou o Núcleo do Dirceu em Teresina, Piauí, depois de assistir, ensaiou a sua resposta: "Uma fruta-flor de beira de rio que cresce nos calçadões da beira do mar desse imenso país. um pajé-oxumaré-ready-made-duchampiano-caboclo de pena-miçanga-de-índio-tá-boa-santa. saravá bien!" (marceloevelin. wordpress.com/2010/12/05/fruta-gogoia/). Sou Fruta Gogoia em 3 Tendências - Projeto Transformers foi mesmo um samba ensaiado, que o Mestre não olha. Uma moça, uma joia.

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