Você não é o...?

Greta Garbo caminhando numa trilha do Central Park.

Lúcia Guimarães, lucia.guimarães.com.br, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

Woody Allen descendo as escadas do Museu Whitney.

Pierce Brosnan na plateia de João Bosco (e "se esquecendo" de pagar a conta no final).

Goldie Hawn desafiando a gravidade e a passagem do tempo na Rua 57.

Ewan McGregor correndo no reservatório do Central Park.

Christopher Walken comendo na mesa à minha frente.

Lou Reed e Laurie Anderson estacionando na vaga ao meu lado, com um cachorro terrier.

Esta é a rotina de uma cidade como Nova York, na minha experiência. Ao contrário de Los Angeles, que gosta de ser conhecida como industry town, epicentro da indústria do cinema, Nova York, com sua densidade demográfica, ferrenha competição em profissões distintas e metro quadrado exorbitante quer se considerar a metrópole onde a fama não interrompe a rotina mundana. Pedidos de autógrafos e poses para fotos com o poodle da família são comportamento de forasteiros.

É um engano pensar que todas as celebridades, visitantes, transplantadas ou nativas, são acometidas de um fervor igualitário e querem se misturar à multidão. Jerry Seinfeld gastou quase US$ 2 milhões para construir uma garagem vertical para sua coleção de automóveis a sete quadras de onde batuco meu teclado. A comicidade de construir um berçário para 20 Porsches no coração da grande cidade americana mais hostil ao automóvel parece ter escapado ao comediante.

A celebridade em Nova York não quer necessariamente a erosão de sua fama e sim o privilégio de circular à vontade sem se responsabilizar por ela. Matt Damon não fura fila no Starbucks aqui perto. Mas, se quiser jantar no restaurante The Lion e descobrir que não há mesa disponível para mortais, será que vai continuar brincando de incógnito? Pergunte aos recepcionistas de reservas de restaurantes disputados em Manhattan, que costumam receber telefonemas suspeitos de "Tom Cruises" e "Brad Pitts".

Há um prazer dos não famosos nativos de furar o balão do orgulho alheio. "Não me interessa quem você é" costuma suplantar aqui o velho argumento "Você sabe com quem está falando?".

A elegante e saudosa dra. Ruth Cardoso não tentou nada parecido numa noite fria de 2001. Era sua primeira escapada sem agentes de segurança, numa viagem de trabalho em Nova York. Servi de intermediária entre a nossa primeira-dama e o Departamento de Relações Públicas da Brooklyn Academy of Music. Ela pedira uma sugestão de balé e recomendei a temporada do coreógrafo Mark Morris, que acabara de filmar para um especial.

Seguimos para o Brooklyn com uma amiga em comum, peguei os ingressos na bilheteria, tomamos nossos lugares e, depois de alguns minutos, ouvi uma voz de mulher dizer: "Elas pegaram nossos assentos!" Levantei solícita e ficou estabelecido que havia mais de um ingresso impresso com o número do mesmo assento. A fortíssima lanterninha do teatro chegou e trovejou para dra. Ruth, que já estava sem graça com a atenção: "Madame, a senhora vai ter que levantar." Enquanto eu sussurrava alguma explicação, "ela é convidada do teatro" (já que dizer, "ela é mulher do presidente brasileiro" não ia impressionar a lanterninha e haveria de mortificar a dra. Ruth), as donas dos outros ingressos foram se aboletando nas poltronas e uma assessora de imprensa apareceu, providencial, para nos tirar da saia-justa.

Só em Nova York, pensei.

Meu esbarrão recente no primeiro casal do cool, Lou Reed e Laurie Anderson, se deu no estacionamento de um Starbucks de Long Island, dias antes de o ex-líder do Velvet Underground anunciar que ia cancelar sua ida à Flip, em Paraty. Ao abrir a porta do carro, notei o par de olhos defensivos, sem dúvida na expectativa de serem reconhecidos. Lou Reed parecia um cowboy, com a mão no gatilho, pronto para reagir ao primeiro sinal que eu fizesse para abordá-lo. Notei a ainda viçosa Laurie Anderson caminhando devagar com o terrier velhinho e plantei os olhos no bicho.

Comprei meu café, voltei e os dois ainda cuidavam do cachorro e fiz sinal para que Laurie Anderson não se apressasse por causa da minha manobra. Foi uma inversão do momento fugaz entre celebridade e cidadã anônima e me senti muito nova-iorquina por dar mais atenção a um cachorro do que ao autor de Walk on the Wild Side.

Até que, na saída do estacionamento, um homem às gargalhadas começou a acenar para mim, apontando para o topo do carro. O café que eu tinha acabado de comprar estava viajando solto lá em cima. Sou tão tipicamente nova-iorquina quanto é escocês o uísque comprado em Ciudad del Este.

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