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Você já foi à Disney?

Há pessoas que nunca foram e muitos que nunca saíram do parque de diversões

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2020 | 03h00

Pela primeira vez na vida, estou no parque da Disney, em Orlando. Prometi que levaria meu sobrinho e afilhado e, anos depois, chegou o momento de cumprir. Como acontece com pessoas que se preparam para dores atrozes em um exame ou para o horror de uma festa micada, quando o real beija a praia com suas ondas, parece menos terrível. 

Lembro-me de um vídeo com o divertido e genial Ariano Suassuna sobre o espanto de alguém pelo fato de ele nunca ter ido à Disney. Procurem na internet. A narrativa do mestre é incomparável. Claro que um homem como ele, nascido em um palácio, deseja a identidade das massas em oposição ao espanto de uma burguesa. É uma estratégia retórica, que em nada diminui a história.

O que é um parque? Pego uma ideia de matriz foucaultiana. Os hospícios surgiram para, não apenas, isolar os ditos loucos, porém, acima de tudo, para deixar claro a quem não estivesse neles que era saudável e racional. Da mesma forma, o parque de diversões serve para delimitar uma área onde a fantasia é aceitável e o real fica fora dos portões. Entramos nos parques e estamos desligados do mundo produtivo, da racionalidade, do “tempo do mercador” e podemos, como previa Mikhail Bakhtin, “carnavalizar” o mundo por alguns dias. O grande objetivo é que, após uma espécie de catarse lúdica, estejamos prontos para retornar ao real, ao metódico, ao plausível e aceitável. Aqui a fantasia flui. As crianças ignoram e os pais tentam esquecer-se dos custos do lúdico. Alegramo-nos em dólar, fotografamos em dólar e comemos em dólar regado a colesterol. O grande objetivo é que tudo seja divertido e, talvez, terapêutico.

Não é o texto de um intelectual azedo atacando a Disney. Pelo contrário. Apenas uma reflexão sobre um movimento visível a partir da minha geração, de que as crianças de classe média e alta devam experimentar os parques como um ritual necessário para a biografia. Ai daquele que não colocar fotos da Disney sobre o piano ou aparador. 

O curumim da nossa combalida floresta deve colocar a mão em luva com formigas tucandeiras, de picada aguda e, dizem, no limiar do insuportável. É um ritual para provar que já é um homem e que suporta a dor como se espera de um guerreiro. O mundo “adulto” indígena o prepara para a possibilidade de enfrentar o sofrimento. A Disney pede o oposto: que você evite sofrer para passar a outra etapa, que insista em esgarçar a infância. Os pais podem se infantilizar, os filhos podem se entregar, o rito da Flórida é o da antiformiga. Há dor, claro, nas filas, nas contas do cartão e nas caminhadas de um lugar a outro. Porém, o mais importante, é que estejamos todos bem nas fotos. O que ficará não é o extrato bancário ou o stress da multidão. O que se inscreve na ordem da memória é a foto, o vídeo, o sucesso e a alegria.

Sim, há alegria, especialmente acompanhando uma criança. Ela nos ensina que o que importa, de verdade, está longe do que nos ocupa todos os dias. Dilema cruel: eu preciso da pressão do trabalho intenso para pagar a alegria e, quanto mais eu trabalho, mais fico viciado em alegrar-me por alguns instantes. 

Conheci Las Vegas no ano passado e a Disney agora. Adorei e considero os débitos todos pagos, vividos e expurgados. Posso reencarnar na Dinamarca, ou, talvez, em uma aldeia sateré-mawé, supondo que o grande desafio da dor durará só o instante da luva com os insetos.

Existe um azedume de alguns meios acadêmicos sobre Disney. Uma viagem superior seria a museus e igrejas, lugares cheios de significados densos. Visitei muitos museus na vida. Nos enormes, como Britânico ou Louvre, posso garantir, o comportamento entre um grupo da Disney e de turistas na frente da pedra de Roseta ou da Mona Lisa é muito semelhante. Sai Mickey e entra Champollion. Desaparece Epcot e desponta Leonardo da Vinci. Em comum? A selfie e o brilho entre cansaço e satisfação de tarefa obrigatória “ticada”. Sei que soará heresia: em linhas amplas, a Disney é menos hipócrita do que o Louvre.

La nave va... A vida trará a todos muitas tucandeiras agudas e eficazes. O mundo do século 21 deseja prolongar a infância e infantilizar os adultos. A vida parece doer mais hoje. Não foi a Disney que nos tomou, foi tudo, inclusive museus e excursões culturais. 

Gostei muito da experiência aqui. Lutarei para que seja única na minha memória. Acho que um bom ponto para pensar é desejar que o lúdico e fantasioso invada mais as casas e as camas dos pais. Que o cultural não se resuma ao prédio do museu. Mestre Suassuna ouviu o espanto da senhora sobre ele nunca ter ido à Disney. Eu amplio a pergunta e respondo àquela gentil conviva: onde a senhora tem ido nos últimos anos, de verdade? Onde a senhora é? Há pessoas que nunca foram e há muitos que nunca saíram do parque de diversões. Boa semana para todos. 

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