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Você já foi à Disney?

Acho que indo três vezes à Disney recebemos o direito de reencarnar em um lugar muito bonito depois

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

20 de março de 2019 | 04h30

Há um vídeo muito engraçado do mestre Ariano Suassuna narrando, com sua verve característica, o questionamento enfrentado por ele sobre nunca ter ido à Disney. Como eu também nunca fui ao afamado conjunto de parques, já sofri esse “bullying” dos versados no mundo do Mickey. 

Já fiz muitas viagens, talvez até mais do que gostaria. Certa vez, ao entrar pela terceira vez em Mianmar em 18 meses, imaginei que seria barrado na alfândega por funcionários convencidos de que ninguém visitaria tanto a antiga Birmânia se não houvesse um motivo escuso. Amo culturas distintas e prédios históricos. Adoro descobrir culinárias e visitar museus. Converso com pessoas de outros países na rua e quero saber o máximo possível sobre como cada lugar percebe a realidade. Porém, também sei que chegar ao Rajastão envolve três aviões, muitas horas no ar, posições incômodas na poltrona, espera, contratempos, filas, saguões apinhados, multidões e riscos. Sim, as quatro primeiras vezes em Jaipur são fascinantes. As seguintes... um pouco menos. 

Em jantares e festas, o tema “viagem” é quase obrigatório. Há 20 anos, as pessoas perguntavam por Paris, Londres e Nova York, basicamente o circuito Elizabeth Arden, como se dizia. No fim do século 20, o tema Himalaia abandonou a agenda dos hippies e budistas e ganhou a classe média e alta. O Butão tornou-se desejável, bem como a árdua caminhada à base do Everest. Bangcoc, a movimentada capital da Tailândia? Não, isso é “carne de vaca”. O legal é ver lanternas luminosas em Chiang Mai. Mal você anuncia que já foi algumas vezes a Chiang Mai e alguém solta: “Mas ficou naquele hotel que tem um arrozal dentro? Se você não ficou lá, nunca viajou ao festival”.

Há 20 anos, a gente ia ao Marrocos e suas belezas impactantes. Conhecíamos os palácios e mercados de Fez e Marrakesh. Era outra época. Hoje é fundamental passar uma noite ao luar nos montes Atlas, em famílias de beduínos, de preferência em barracas. “Você nunca visitou as igrejas subterrâneas da Etiópia? É o lugar mais incrível do mundo!” Já descobri que o lugar mais incrível do planeta é sempre aquele exótico que só o narrador conhece. “Conhece Israel?” “Sim”, respondo eu. “Mas... já foi àquela aldeia de cabalistas na Galileia e visitou o ateliê do artista tal que faz arte com trechos sagrados? Se você não fez isso, nunca visitou Israel de verdade...”

Dar uma dica complexa que demonstre intimidade absoluta com um lugar inacessível é um verdadeiro passaporte do impacto social. Em era de redes sociais, o conhecimento de um lugar não é tão essencial quanto o registro dele ou o uso da memória de viagem em conversas descoladas. 

“Essa trilha na Mongólia transforma sua vida. São dias andando nas estepes sem banho, dormindo em barracas, passando frio, porém, a experiência é transformadora. É um sofrimento que eleva sua consciência.” Estou reproduzindo uma conversa exata tida há duas semanas. “No meio do passeio”, disse-me outra pessoa, “você pode pegar gelo milenar e colocar no seu uísque”. Bem, não bebo uísque de fato e preferiria o gelo esterilizado em saquinhos industriais, menos românticos e mais seguros. 

Tenho memórias incríveis de muitas viagens. Chorei em um crepúsculo na Baía de Halong, no Vietnã. Era muita beleza. No Taiti, tive uma conversa com um padre nativo sobre a concepção de Deus que me lembro com afeto até hoje do nosso denso diálogo. Sozinho, em um balão na Capadócia, o guia turco falou sobre a visão dele do Islamismo e eu anotava coisas para buscar referências depois. Adorei a culinária de centenas de lugares. Tendo alguns cuidados sobre a proporção da pimenta, o resto é puro prazer. Tenho o privilégio de ter um estômago extraordinário. “Ovos de cem anos” na China com cheiro igualmente centenário e pretos como a noite? Nham! Uma tonelada de cardamomo, anis-estrelado e cominho no seu frango na Índia? Tragam-me mais. Caracóis suculentos na França? Manteiga de Iaque em Lassa? Por vezes basta bloquear o nariz e ser feliz. Em outras, no coração da África, do México ou no Norte do Japão, importante não perguntar muito sobre a qual família animal pertence aquilo que jaz sobre a mesa. Ignorância pode ser uma bênção. Uma senhora que viajava comigo, muito religiosa, perguntou em Ping Yao, no coração da China: “Professor, essa comida é kasher?”. Eu respondi que não sabia nem se a carne era de um mamífero... 

Não, nunca fui à Disney. Talvez vá em 2020. Tenho uma promessa feita a meu sobrinho-afilhado Davi. Acho que indo três vezes à Disney, recebemos o direito de reencarnar em um lugar muito bonito depois. 

Há muita coisa fascinante enterrada em lugares ermos e ruínas em clareiras no meio do nada. Há passeios de van no meio de ilhas desabitadas com vistas únicas. Envelheço querendo um pouco mais de bolo de canela com chá em um bom hotel de Nova York. Sim, você pode experimentar um simpático hamster (cuy) no Peru, que em tudo se parece com um rato assado sobre a mesa. É uma experiência importante. Aliás, tem um restaurante em Lima superescondido... É preciso ter esperança e um bom estômago... 

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