Coley Brown/The New York Times
Coley Brown/The New York Times

Você está pronto para os robôs inteligentes da Disney?

Alguns dos animatronics dos parques da Disney têm feito seus movimentos e sons repetitivos desde a época do governo Nixon; a empresa sabe que nostalgia não contagia as crianças de hoje

Brooks Barnes, The New York Times

26 de agosto de 2021 | 10h00


GLENDALE, Califórnia - Eu estava indo conhecer o Groot.

Não um Groot de imitação, invocado por um vídeo ou naqueles desajeitados óculos de realidade virtual. A Imagineering, a pouco conhecida divisão de pesquisas e desenvolvimento da Walt Disney Co. tinha prometido um Groot que caminha, fala e expressa emoções, como se o arbóreo personagem dos Vingadores tivesse saído da tela e estivesse vivendo entre nós.

Mas primeiro eu tinha que encontrá-lo. O GPS tinha me levado para um armazém em uma rua sem saída em Glendale, um subúrbio de Los Angeles. O lugar parecia deserto. Assim que estacionei o carro, porém, um homem surgiu timidamente de trás de um jacarandá. Sim, eu tinha hora marcada. Não, não estava escondendo nenhum tipo de gravador. Ele fez um telefonema, e eu fui escoltado por dentro do armazém até uma porta sem placa, atrás de uma lixeira.

Do fundo do recinto, próximo a uma cortina negra, uma pequena mão enrugada acenava para mim dando alô.

Era o Groot.

Ele tinha cerca de 90 centímetros de altura e caminhou na minha direção com os olhos bem abertos, como se descobrisse uma misteriosa e nova forma de vida. Ele me olhou de cima a baixo e se apresentou.



Fiquei em silêncio, e o comportamento dele mudou. Ele deixou cair os ombros e me olhou com uma expressão de filhote de cachorro. “Não fique triste”, desabafei. Ele sorriu, fez uma dancinha e se equilibrou em um só pé com os braços esticados.

Eu quis abraçá-lo. E levá-lo embora para minha casa.

“A novidade que está chegando aos nossos animatronics é uma inteligência”, afirmou Jon Snoddy, executivo sênior da Imagineering. “Mais verossímil, mais surpreendente.”

Ele olhou para o Groot apaixonadamente. “Esse carinha representa nosso futuro”, disse ele. “É parte de como manteremos nossa relevância.”

Robôs são parte do segredo de sucesso dos parques temáticos da Disney desde a década de 1960, quando Walt Disney introduziu os “audio-animatronics”, como ele chamava os bonecos mecânicos com movimentos coreografados. Havia as cantorias infinitas das bonequinhas do Small World, os “yo-ho!” dos saqueadores piratas do Caribe, e Abraham Lincoln pronunciando o Discurso de Gettysburg. Essa tecnologia fez um sucesso desenfreado, encantando gerações de crianças e transformando a Disneylândia, na Califórnia, e o Walt Disney World, na Flórida, em marcos culturais e negócios colossais.

Os 14 parques temáticos da Disney ao redor do mundo atraíram 156 milhões de visitantes em 2019, e a divisão Disney Parks, Experiences and Products gerou uma receita de US$ 26 bilhões. A pandemia de coronavírus prejudicou severamente as operações por um ano, mas as multidões retornaram. O tempo de espera para poder percorrer os sinuosos trilhos do Trem da Mina dos Sete Anões, no Disney World, em um dia recente, era de duas horas e 10 minutos - apesar da maldita variante delta.

Ainda assim, a Disney encara um dilema a longo prazo. O aumento de velocidade da vida cotidiana, os avanços nas tecnologias pessoais e o ambiente de mídias em rápida transformação estão reformulando o que os visitantes esperam de um parque temático. A Disney sabe que tem de projetar uma nova geração de atrações espetaculares fundamentadas na tecnologia se quiser continuar a absorver os dólares que as famílias gastam nas férias.



Há animatronics no Disney World que realizam os mesmos ciclos de movimentos e sons repetitivos desde que Richard Nixon era presidente. Enquanto isso, as crianças do mundo têm se tornado adeptas da tecnologia e são criadas interagindo com aplicativos (são 3 milhões de apps na Google Store), o universo Roblox de games online e os filtros de realidade aumentada do Snapchat. Há carros que prescindem de motoristas, e os foguetes SpaceX estão pousando autonomamente em navios autônomos.

Como os rudimentares pássaros animatronic do Enchanted Tiki Room da Disneylândia poderão competir com isso? Eles causavam deslumbramento em 1963. Hoje, algumas pessoas adormecem no brinquedo.

“Pensamos bastante a respeito de relevância”, afirmou em abril Josh D’Amaro, presidente da Disney Parks, Experiences and Products, durante um evento virtual para promover a inauguração de um brinquedo interativo do Homem-Aranha e uma “terra” imersiva dedicada aos Vingadores da Marvel. “Temos uma obrigação com os nossos fãs, com os visitantes de nossos parques, de continuar evoluindo, continuar criando experiências novas e diferentes para atraí-los. E garantir que a experiência seja atual e relevante.”

“E fazer isso tudo é arriscado”, reconheceu D’Amaro. “Existe um legado aqui. As pessoas gostam das coisas como elas são. Mas vamos seguir adiante, continuar melhorando as coisas.”  

O desenvolvimento de novos e melhores personagens em animatronic ocupa há muito tempo um grande espaço na cartilha Disney. Quando foi inaugurado, em 1982, o Epcot fez queixos caírem com um Benjamin Franklin hidráulico que parecia subir uma escada. Em 1989, a Disney deu um passo além na tecnologia, revelando uma Bruxa Má do Oeste que movia os braços e se deslocava com notável velocidade e precisão.

Mais recentemente, a Disney apresentou robôs de personagens que conversam com os visitantes (Mr. Potato Head, 2008). Outros se movimentam com tamanha elegância que alguns visitantes os confundem com projeções de vídeo (um xamã Avatar, 2017).

Os brinquedos da Disney sempre exigiram alguma suspensão da incredulidade - embarcamos em verdadeiros galeões voadores no Peter Pan’s Flight, não em carrinhos plásticos sobre um trilho. Mas avanços imagéticos no cinema - animação gerada por computador, mistura de cenas filmadas com elaborados efeitos digitais - pressionaram a Disney a tornar seus robôs mais convincentes.



“Todos sabem como a Elsa se movimenta”, afirmou Kathryn Yancey, engenheira mecânica que trabalha em shows da Imagineering, referindo-se à princesa de Frozen. “As crianças assistem o filme dezenas de vezes, talvez tenham assistido naquela mesma manhã, no carro, a caminho do parque. Então, nossa Elsa animatronic também tem de ser ágil e lírica; não pode andar desajeitadamente.”

No início de junho, a tecnologia animatronic da Disney deu um sônico passo à frente. O brinquedo mais novo do Disneyland Resort, WEB Slingers: A Spider- Man Adventure (Lançadores de teia: uma aventura do Homem-Aranha), apresenta um robô “acrobatrônico” (vestido com o uniforme do Cabeça de Teia) que realiza elaboradas peripécias aéreas, como se fosse um acrobata de carne e osso. Uma catapulta lança o robô sem amarras a 20 metros de altura, e ele realiza vários truques (cambalhotas mortais em um dos lançamentos, um “quase tombo épico” em outro), enquanto ajusta sua trajetória autonomamente para cair sobre uma rede oculta.

“É eletrizante porque fica difícil saber se é um robô ou uma pessoa - o Homem-Aranha acrobatrônico é realista a esse ponto”, afirmou Wade Heath enquanto pegava de novo a fila para entrar no WEB Slingers, no início de agosto. Heath, de 32 anos, recrutador da firma de segurança Pinkerton, descreveu a si mesmo como um “grande aficcionado pela Disney”, que por vezes se surpreendeu com a lenta evolução dos parques da empresa.

“Os animatronics mais antigos carregam uma nostalgia maravilhosa”, afirmou ele.”Mas eu tinha 10 ou 11 anos quando parei de acreditar que eles eram reais. As crianças de hoje provavelmente param de acreditar ainda antes.”

O robô do Homem-Aranha - 43 quilos de microprocessadores, componentes plásticos fabricados por impressoras 3-D, giroscópios, acelerômetros, alumínio e outros materiais - levou mais de três anos para ser desenvolvido. A Disney recusou-se a revelar o custo de sua empreitada acrobatrônica, mas a empresa investiu facilmente milhões de dólares. Agora que a tecnologia foi aperfeiçoada, a Disney planeja aplicá-la em outros parques. O WEB Slingers, por exemplo, foi liberado para a Disneylândia de Paris.

Injetar dinheiro em acrobatrônicos exigiu fé, afirmou Bob Weis, diretor da divisão Imagineering da Disney, que tem mais de mil funcionários. No começo, isso não passava de um projeto de pesquisa caro e sem perspectiva de resultados concretos.

“Não é fácil comprovar retorno de investimento em invenções que não são consideradas possíveis”, afirmou Weis. “Nosso extenso histórico na criação de experiências que maravilham completamente nossos visitantes - para que eles suspendam a incredulidade e vivenciem aquele momento - abriu caminho para a aceitação desse tipo de risco inerente.”

Mas os orçamentos não são infinitos. “Temos de ser cautelosos porque, como você bem pode imaginar, temos várias ideias, habilidades e histórias incríveis”, acrescentou Weis.


Tradução de Augusto Calil

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