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A experiência do velho, dizia Pedro Nava, são faróis que iluminam para trás

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2018 | 03h00

Desculpe tocar no assunto, mas há um dia em que a juventude chega ao fim – e então, como se isso não bastasse, a criatura se vê compulsoriamente embarcada numa espécie de correia transportadora que, em velocidade nada geriátrica, haverá de arrastá-la velhice adentro.

Não recomendo. Tirante as filas preferenciais, que o envelhecimento da população acabará por extinguir, já que idoso deixará de ser minoritário, o aumento de velas no bolo não nos traz vantagem alguma – e, vou avisando, aos 60 a mensalidade do seu plano de saúde vai dobrar.

*

Para um varão, a consciência de que algo irreversível aconteceu pode vir no dia em que, passando pela rua onde meninos jogam pelada, uma bola sobrar na sua direção. Nesse momento, vozes juvenis vão pedir ao “senhor” – não mais ao “moço” – o favor de devolvê-la.

Comigo não foi assim, felizmente, porque aí teria havido a humilhação adicional de um chute torto, perna de pau que sou desde garoto. Desse vexame fui poupado.

Foi diferente, mas não menos brutal: no metrô, já faz tempo, um passageiro se levantou e me ofereceu assento.

Tomado de indignada surpresa, cheguei a apontar o próprio peito, como quem se sentisse objeto de desagradável, quase insultuoso equívoco: “Eu?!”. Só podia ser ofensa tratar como ancião quem se sentia, no máximo, um rapaz maduro. Velhice, se tivesse havido, seria coisa do passado, a conta de me habilitar para dizer, numa roda de bate-papo: “Quando eu era velho...”.

E agora, num sacolejante carro do metrô, me vem aquele choque de realidade. Para piorar as coisas, quem cedeu lugar ao macróbio não foi um jovem, mas um sujeito de uns 50 anos.

Ainda relutei. Disse altivamente que não carecia, mas acabou prevalecendo a obrigação de não ofender, com uma recusa, o autor do oferecimento – e lá fui eu, a passos vacilantes e com a espinha recurvada (tudo bem, exagero um pouco, mas me pareceu que era assim), rumo a um assento azul ainda quente. Senti que finalmente correspondia àquela alquebrada figurinha de bengala que alguém, com certeza ainda jovem, cometeu a involuntária maldade de estampar no cartão de transporte dos cidadãos paulistanos com mais de 60 anos de idade. Para mim, de repente converteu-se em assunto pessoal o duro diagnóstico que Cassiano Ricardo pôs em versos: “Não foram os anos, não, / que me envelheceram / – longos, lentos, sem frutos. / Foram alguns minutos”. Nunca mais pude driblar a evidência de que, a bordo ou não, sou passageiro.

Logo eu, que me via como genuína vocação de jovem. Por inércia, aconteceu. Por falta de morrer, você vai acumulando, além de ferrugem, não digo sabedoria, porém manhas de viver. De limitada valia, devo informar. Limitada – e intransferível. Sábio além de manhoso, Pedro Nava dizia que tais aquisições nenhuma serventia têm para quem chegou depois, pois a experiência do velho são faróis que iluminam para trás.

Como nem isso tenho, permita-me acender minha modesta lanterna e jogar uma luzinha baça, tudo de que sou capaz, sobre dois caminhos que se abrem à frente dos que vão amadurecendo. Há o inconformado a macaquear o jovem que já não é, e que, patético, pateta, não resiste à tentação de pintar os cabelos, literal e existencialmente. E há, na mão oposta, quem finque o pé e se refugie lá atrás, conferindo empedernido reacionarismo ao belo verso do espanhol Jorge Manrique, para quem “qualquer tempo passado foi melhor”. Já que enveredei pelas citações, seria o caso de lembrar, como Paul Valéry, que “a nostalgia não é mais o que ela era”.

*

Aconteça como acontecer, prepare-se: não tem volta.

Durante um tempo você ainda vai espernear, devolvendo de maus modos o “senhor” ou “senhora” com que for (mal)tratado/a. Aos poucos, o reflexo revanchista irá esmaecendo. E não é impossível que lhe sobrevenha, um dia, algo parecido com uma recaída de juventude.

Foi assim comigo, no dia já distante em que, sexagenário recente, fui tomar a vacina antigripal no posto de saúde. Desempenei a carcaça e atravessei a massa de senhores e senhoras, em meio aos quais me sentia um lépido corpo estranho. “Você não tem carteirinha?” – cobrou a coronela por detrás da mesa. “Não”, respondi – e expliquei, jubiloso ao ver que alguém não só punha em dúvida a minha avançada idade como me aplicava um “você”: “É a primeira vez que sou velho...”.

Aqui e ali, num guichê de cinema, por exemplo, quando você pedir meia-entrada, poderá um são-tomé exigir comprovante da condição de idoso. Faz tempo que já não me acontece. Hoje, quando entro no metrô, estou preparado para que toda a gente ali, não mais apenas uma solitária boa alma, me ofereça assento.

Quando vier a sua vez, não se iluda com a piedade ultrajante dos rótulos “terceira” ou “melhor idade”, por certo invenção de quem ainda não chegou lá. Ou com a observação de que você está “conservado/a” – elogio por detrás do qual só posso ver, se não lisonja, a suposição de que andou tomando doses de formol.

De minha parte, busco consolo numa frase de David, personagem vivido por Paulo José nessa delícia de filme que é Juventude, de Domingos Oliveira. Septuagenário, ou não muito distante disso, David a certa altura diz a Ulisses (Aderbal Freire-Filho) e Antônio (Domingos), amigos desde a mocidade, que são três as idades do homem: a juventude, a maturidade e a “você-está-ótimo”.

Estou fazendo força para acreditar.

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