Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Você ama?

A lição de ‘Romeu e Julieta’ é uma advertência contra a insanidade da paixão

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2020 | 03h00

Um jovem estudante de história aprende logo que a maneira como lemos o amor tem raízes concretas no passado. Amor não possui essência atemporal. As canções de menestréis medievais, especialmente na Provença francesa, os sonetos humanistas de Petrarca, a idealização de Beatriz por Dante em Florença e, acima de tudo, o Romantismo dos séculos 18 e 19 foram vigas mestras para que se criasse uma gramática do amor como nós o entendemos. Os autores naturalizaram a idealização da pessoa amada, a ideia de completude que só existiria na presença dela ou dele. Mais: cria-se o desejo por uma infecção perturbadora que arrasa com a racionalidade.

A sociedade europeia inventou o vocabulário do amor. Funciona como desejo de grávida: em círculos humanos que nunca ouviram a hipótese de uma mulher ter vontades exóticas durante a gestação, o impulso simplesmente não ocorre. Em grupos em que a menina cresceu ouvindo que toda mulher pode demandar sardinhas fritas de madrugada e que isso é aceitável, a gula bizarra eclode como uma forma de poder temporário. O mesmo ocorre com a adolescência: centenas de sociedades a ignoram e onde não existe o conceito de adolescente-problema, onde domina um único ritual de passagem da etapa infantil para a vida adulta, desaparece a longa crise entre a infância e a maturidade.

Já imagino a contestação: tudo então seria apenas convenção social? Não foi esse o meu objetivo. Quero formular uma reflexão que não é unânime entre historiadores. Existe o desejo sexual. Os hormônios descarregados no corpo de alguém após a infância são quimicamente detectáveis. Não se trata de um delírio, é um fato biológico. A partir disso, existem convenções sociais. Em uma sociedade na qual o código moral e religioso estabelece regras claras, o sentimento sexual será sentido como ruim, incômodo ou perverso. Da mesma forma, onde floresce o discurso do amor e da paixão como referência cultural, é comum perguntar-se aos jovens por quem ele/ela estão apaixonados. Entre amigos púberes, a paixão é esperada e incentivada. Os filmes e os livros mostram como o amor vence todos os obstáculos, como ele dá sentido à existência. Agora vem a pior de todas as criações culturais: existiria uma metade, uma alma gêmea, um ser perfeito que se adapta, convexamente, ao meu côncavo. Tal encaixe mágico ganha tons de destino: o formato das peças foi preparado há muito. Assim, o desejo sexual (que já passa por mediações culturais enormes) vai sendo associado a uma paixão específica. Muitas sociedades tratam o campo erótico de outra forma e entendem o casamento como um contrato jurídico e social no qual a ideia de paixão nem seria desejável. O que faria um matrimônio durar não seria o amor permanente, todavia a proximidade de formação ou de renda, a capacidade de gerar herdeiros que assegurarão o nome da família. O casamento não seria uma escolha de indivíduos, mas social. Os arranjos matrimoniais de muitos hindus ou religiosos tradicionais falam de uma espécie de sociedade harmônica e a harmonia implica coisas muito racionais, evitando o fogo da paixão. Jovens apaixonados provocam o caos, como Romeu e Julieta de Shakespeare ou o casal de Amor de Perdição de Camilo Castello Branco. A lição das duas obras é uma advertência contra a insanidade da paixão e o custo insuportável dela. Que ambas sejam lidas como casos de amor belíssimos demonstra que o pathos cantado pelos trovadores da Provença é vitorioso em grau máximo.

Desconfio muito do amor inflamado, do amor que não existe sem a outra parte, de pessoas casadas com uma essência sem elaborar a existência. Confio na relação amorosa que desafia, que aumenta minha consciência, que estimula que eu consiga mais do meu potencial e explore mais o mundo. Gosto do amor-desafio que fala de um Nós que não suprime o Eu e o Tu, que cresça junto e instigue a ser cada vez mais e que, por força da convivência e das conversas mútuas, mostre meus pontos cegos. A convivência íntima do amor, o contato de corpos, o cotidiano que derruba cenografias e formalidades: tudo pode ser uma ferramenta extraordinária de conhecimento de si e do mundo.

Minha ideia de amor não é melhor ou pior do que qualquer outra. Amor é exercício e vontade de ultrapassar nossa infantilidade estrutural. Não há damas encantadas no lago, não há cavaleiros de armadura reluzente, nunca houve uma alma gêmea, jamais um amor redimiu alguém. Quem trabalha com a estética amorosa idealizada corre o risco de Dante: nunca conviveu com Beatriz, nunca se beijaram, jamais compartilharam nada além de um olhar idealizado junto ao Rio Arno e, como consequência natural da fantasia amorosa, só puderam trocar frases no Paraíso, quando Beatriz já não era um corpo. Aliás, tomando o final do centésimo canto da Divina Comédia, nem isso saberemos se foi um sonho ou real. Esse é o amor analgésico das dores do mundo. Que Dante tenha exaltado aquela com quem ele jamais esteve a sós e tenha evitado cantar a virtude e a beleza da esposa que o acompanhou a vida inteira é um dos muitos defeitos da idealização amorosa. As miragens são compreensíveis sob o calor do Saara e muito perniciosas mesmo lá. O amor real é uma disposição interna que vive na prática diária. O outro é fácil: basta ser o Romeu que encontra Julieta no domingo e morrem em menos de cinco dias. Amar por uma semana é onanismo a dois. Amar por anos é para quem está disposto a muito mais do que um ajuste corporal. E se Romeu e Julieta completassem bodas de prata? Boa semana para todos os casais que se amam há mais de uma semana.

Tudo o que sabemos sobre:
literaturaLeandro Karnal

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.