Vocação natural para o cinema

Adaptação de A Importância de Ser Prudente - em que o trivial é tratado a sério[br]e vice-versa - foi tema de um ensaio no caderno

João Gaspar Simões, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

16.1.1965

Tudo nos leva a crer que se Oscar Wilde tivesse vivido no nosso tempo morreria de amores pelo cinema. Wilde era antes de mais nada um homem espetacular. Por isso mesmo o seu teatro e a sua vida foram as mais belas coisas que nos deixou. Estou certo de que o cinema remataria perfeitamente um comportamento humano em que as atitudes alternavam com uma linguagem incisiva e paradoxal. Que o digam os filmes de Charles Chaplin, por natureza ao mesmo tempo incisivos e paradoxais.

Cientes, talvez, disto mesmo, não esqueceram os realizadores ingleses as comedias wildianas, de que têm podido tirar excelente partido cinematografico. A ultima de que lançaram mão, sem duvida a obra-prima do comediógrafo, rival de Sheridan, e gloria da cena britanica, é "The Importance of being Earnest", titulo que, traduzido para português, deu "A Importancia de se chamar Ernesto", realmente sem pés na cabeça.

O "Earnest" do título, neste caso patronimico, é um adjetivo inglês de duplo sentido: ao contrario do nosso Ernesto, tão simples que só quer dizer Ernesto, nada mais, o Earnest britanico diz também o que Wilde pretendia dizer quando John Worting, sua personagem, familiarmente Jack e miticamente Earnest, na ultima tirada da peça, exclama: "Só agora compreendo, pela primeira vez na minha vida, a vital importância de ser Earnest", isto é, a vitral importancia de ser aquilo que o adjetivo significa: seriedade, boa fé, penhor, lealdade. Rebuscando na nossa onomastica, traduziriamos a frase de Jack, com Candido, com Severo ou talvez com Leal onde está Earnest. "Só agora compreendo pela primeira vez na minha vida, a vital importancia de ser Candido, ou de ser Severo, ou de ser Leal". E então, só então, teriamos esclarecido o enigma de um titulo que, de outra maneira, não quer dizer nada.

De fato, o paradoxo glosado na comedia resume-se, no fim de contas, nisto: que não pode mentir o homem que nasceu para falar verdade.

(...)

Entrevistado nas vesperas da estreia da sua comedia, isto é, em janeiro de 1895 (The Importance of being Earnest" subiu à cena em Londres, no Teatro de Saint-James a 14 de fevereiro do mesmo ano), Oscar Wilde disse a um jornalista, com grande surpresa deste, que a sua comedia tinha uma filosofia. Que filosofia? - perguntou o jornalista, admirado. E Oscar Wilde de responder com petulancia: "Que devemos tratar todas as coisas triviais da vida muito a serio, e todas as coisas serias da vida com sincera e estudada trivialidade". (...)

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