Vlado memória e liberdade

Filmes e exposição homenageiam o jornalista morto pela ditadura militar

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2012 | 03h27

Uma exposição de cartazes sobre a anistia, ciclos de exibição de filmes, cursos e um concerto vão homenagear, até o fim de julho, o jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura militar, no ano de seu 75.º aniversário.

A programação começou na noite de ontem, com a exibição, na Cinemateca Brasileira, do único documentário de Herzog, Marimbás, feito em 1963 e que tem como tema formas primitivas de pesca na Praia de Copacabana; e de Tire Dié, de 1960, em que o argentino Fernando Birri retrata o cotidiano de meninos pobres que sobrevivem, no interior da Argentina, pedindo esmolas a passageiros de trem.

O programa duplo da noite de abertura dá o tom dos objetivos da homenagem que, segundo Ivo Herzog, filho de Vlado e diretor do instituto que leva seu nome, não quer apenas celebrar a memória do jornalista mas, também, discutir a importância da memória para um povo, "tema muito atual e necessário neste momento em que se instaura a Comissão da Verdade no Brasil". Na Cinemateca, será realizada até o dia 8 de julho uma mostra com cartazes que fazem referência à anistia.

A programação da mostra cinematográfica Memória e Transformação começa oficialmente no dia 19 de junho, na Cinemateca, e passa a ocupar também o Cinesesc a partir do dia 29. A intenção é resgatar documentários políticos feitos na América Latina nas últimas décadas. Ao todo, serão 49 filmes, feitos desde os anos 50 até os dias de hoje.

De João Batista de Andrade, será exibido Vlado, 30 Anos Depois, em que o cineasta narra a história do jornalista a partir de depoimentos de outros amigos e colegas - entre eles Fernando Morais e Paulo Markun, além do cardeal dom Paulo Evaristo Arns e do rabino Henry Sobel, promotores do culto ecumênico em memória de Herzog que, dias depois de sua morte, reuniu milhares de pessoas na Catedral da Sé, em silencioso desafio ao regime militar.

Utopia e Barbárie, de Silvio Tendler, que ao longo de 20 anos coletou depoimentos em todo o mundo para relembrar momentos de idealismo do século 20, também está na programação, assim como Hércules 56, de Silvio Da-Rin - o título se refere ao nome do avião que levou para o exílio os presos políticos trocados pela vida do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado em 1969 no Rio por organizações da esquerda armada. Por sua vez, Diário de Uma Busca, da brasileira Flávia Castro, é uma tentativa da cineasta de decifrar o mistério da morte do pai, ex-exilado político que tombou numa tentativa de assalto em Porto Alegre. Da Guatemala, vem A Ilha - Arquivos de Uma Tragédia, em que Uli Seltzer acompanha a descoberta, em 2005, de um arquivo da Polícia Nacional do país.

O chileno Patricio Guzman, além de apresentar seu Nostalgia da Luz, que relaciona a astronomia com os crimes da ditadura de Augusto Pinochet, vai ministrar um curso gratuito para estudantes de cinema (inscrições pelo site vladimirherzog.org/mostra). Guzman é autor de um documentário fundamental para a compreensão da história do continente, Batalha do Chile, cinco horas dedicadas à ascensão e queda de Salvador Allende, presidente da Unidade Popular, deposto e assassinado dia 11 de setembro de 1973 e substituído pela ditadura de Pinochet.

A programação da homenagem a Herzog inclui ainda a apresentação, nos dias 29 e 30 de junho e 1.º de julho da cantata O Diário de Anne Frank, de Leopoldo Gamberini, que vai reunir 180 artistas, como os músicos da Sinfônica de Campinas, o maestro Martinho Lutero, a atriz Clarisse Abujamra e a soprano Olga Sober no palco do Auditória Ibirapuera, com entrada franca.

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