Vizinhos

Quem seria, ó Céus, minha vizinha erótica? – e passei em revista o mulherio do condomínio

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2018 | 02h00

Redator-chefe da Playboy, uma de minhas tarefas era desbastar o mundaréu de contos supostamente eróticos com que nossos compatriotas inundavam a redação da revista, esperançosos de alcançar, se não a glória literária, ao menos uns trocados. 

Também eu, no começo, punha fé. É hoje!, apostava, contemplando o himalaia de prosa libertina sobre a mesa, e me agarrava ao precedente de afortunados editores que viram saltar ante seus olhos um talento de muitos quilates. 

Um Henry Miller tropical, já pensou? – e me excitava todo, no sentido não libidinoso do verbo, é claro: poderia finalmente servir ao leitor, como respiro entre mulheres nuas, uma pitada de ouro em pó literário, capaz de inflar também os corpos cavernosos do espírito. De quebra, eu próprio faria jus a duas linhas na biografia do gênio que tão certeiramente soubera garimpar na ganga bruta da má ficção. 

O diabo sabe para quem aparece. Me desculpe você aí, que mandou aquele incandescente relato lúbrico, com certeza autobiográfico, mas dos envelopes que me tocou abrir jamais saltou algo que remotamente lembrasse uma joia literária. Nem mesmo bijuteria.

Certa vez, seis laudas em letra miúda me tiraram o fôlego. Não, nada capaz de provocar num crítico uma ereção estética – nem sequer aquela outra, menos sutil, embora o conto pudesse ser descrito como a mais notável compactação que já se fez do Kama Sutra. E vai, e vem, e vira, e mexe, e faz, e tal – não consigo imaginar atrevimento carnal que não tivesse sido ali contemplado por Jennifer O’Hara, pseudônimo de Geni alguma coisa. 

Foi ao ler o nome e o endereço da remetente, no verso do envelope, que me bateu o choque: e não é que havia, bem ao lado, no predinho gêmeo do meu, uma pena que bebia na luxúria? 

Quem seria, ó Céus, minha vizinha erótica? – e passei em revista o mulherio do condomínio. Acabei recorrendo, como quem não quer nada, à onisciência mexeriqueira do zelador, e foi assim, graças ao Antônio, que cheguei à dona Geni do térreo, rechonchuda e merencória criatura já nos seus 70 e pico, às voltas com dois sobrinhos metaleiros, órfãos que lhe coube criar. Vive no aperto, sussurrou o Antônio, sibilando entre escassos dentes: a criatura até já teve que vender umas coisas – eu não tinha visto sair uns móveis e quadros do apartamento 1? 

Saciada a curiosidade, minha preocupação passou a ser que não chegasse à pobre senhora a informação de que um condômino se inteirara de sua escreveção fescenina. Preocupação, também, de que ninguém mais soubesse – vai que algum vizinho, injuriado, resolvesse jogar alguma coisa na dona Geni... 

Ao vê-la entrar (já não mora aqui), resfolegante, com suas compras de supermercado e suas meias para varizes, eu me perguntava, e ainda não me respondo, o que estaria por detrás do x-tudo lítero-sexual de Jennifer O’Hara, se um rasgo de imaginação ou o fruto de muito esforço de memória. 

*

Eu lia meu livrinho, posto em sossego, quando uma cascata de gritos – “ahhh”... “ehhh”... – picotou a noite de domingo. 

A impressão que tive foi de alguém sendo esfolado no andar de cima. Não fui o único a saltar da poltrona, assustado, tentando descobrir de onde vinha aquela esganiçada voz feminina: no meu prédio e no que fica ao lado, meia dúzia de pescoços se insinuou na moldura das janelas, enquanto o alarido – “ihhh...” “ohhh...” – prosseguia a todo pano. 

Cada qual no seu posto de observação, não tardamos a nos dar conta de que o que havia naqueles gritos não era horror, mas, bem ao contrário, o foguetório de um jubiloso esfolamento, digamos assim, sob a batuta do garotão com jeito de surfista que há pouco se instalara no 3º andar. O qual não se limitou a nos brindar com uma sessão apenas, pois o lascivo a-e-i-o-u se fez ouvir mais duas vezes na mesma noite. Fôlego parecia haver para todo um alfabeto. Depois virou rotina, pelo menos uma vez por semana, indefectível como o cheiro de feijoada que sobe do térreo nas manhãs de sábado.

Nem por isso, que eu saiba, o estrepitoso desempenho do casalzinho do 3º andar suscitou falatório entre os vizinhos. Trata-se de gente fina e discreta – com exceção, talvez solitária, do cronista que mora no 2º piso e eventualmente se vê às voltas com o pesadelo maior de seu ofício, a falta de assunto. Na batalha de todas as semanas para preencher seu espaço no jornal, não é impossível que dia desses ele se veja compelido a converter em crônica o espetáculo que, em outros tempos, lhe proporcionou outro morador, cuja janela se abre exatamente em frente à sua, e do qual vai desde já um aperitivo. 

Era um otorrino cinquentão de poucas palavras e muita tinta nos cabelos, de um negror de fazer inveja à graúna, bigodinho aparado à moda antiga, de quem, quando nos cruzávamos lá embaixo, nunca mereci mais que um levantar de sobrancelhas, por sinal bastas, verdadeiras marquises, quase à la Claudio Lembo. 

De seu apartamento, o cronista teria que viver de olhos baixos para não flagrar o doutor na companhia da namorada, ambos de short, pitando, mudos, seus cigarrinhos, dois pares de chinelo Rider pousados na mesinha de centro, os rostos iluminados pelo clarão de um televisor. 

Na vida real, pelo menos, o filme era sempre o mesmo: havia um momento em que um deles se erguia de supetão, corria as cortinas – e por um breve instante, pouco mais que o intervalo dos comerciais, lá dentro reboava um sôfrego ahh, uhh, ahhhh, antes que as cortinas fossem reabertas e se pudesse ver cabeleiras bandeirosamente alvoroçadas, cigarros acesos e, na mesinha de centro, dois pares de chinelo Rider, à luz da tela do televisor.

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