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Vivu! Revu! Amu!

O Esperanto não trouxe a paz que seu criador, Zamenhof, esperava, mas não deixou de fazer barulho

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2016 | 04h00

O inglês Cristopher Hitchens conta que entrevistou um líder do Partido da Liberdade, de extrema direita, da Áustria, e que, quando a conversa derivou para a então recém-lançada moeda comum europeia, o entrevistado pediu a opinião de Hitchens sobre aquele “Esperanto monetário”. Hitchens foi obrigado a concordar, a contragosto, com a sacada do fascista. O euro realmente evocava outra busca de integração transnacional, a do Esperanto, uma língua inventada que – como fatalmente aconteceria com o euro – não pegara, e acabara como apenas uma boa tentativa. O objetivo do Esperanto era o de unificar por uma linguagem em comum, a do euro a de unificar pela moeda. Nos dois casos o objetivo era acabar com conflitos e criar um sentimento compartilhado de humanidade que garantiria a paz.

Com o mercado comum europeu se desfazendo e o euro sendo questionado a torto e a direito, ou à esquerda e à direita, cabe lembrar a experiência do Esperanto – e do seu idealismo frustrado, nem que seja só para comparar fracassos. A “língua franca” que acabaria com a chamada danação de Babel, quando Deus reagiu à pretensão dos humanos de construir uma torre que os aproximaria do ouvido do Senhor, decretando a multiplicação das línguas (e, como efeito colateral, criando a profissão de tradutores) foi uma invenção de Ludovik Lazarus Zamenhof, um judeu polonês que teve uma fase de entusiasta do sionismo, mas depois a renunciou, passando a pregar o fim de qualquer movimento definido por etnia ou nacionalidade. Ele chamou sua nova língua de “lingvo internacia” mas ela se tornou conhecida como Esperanto baseada no codinome que Zamenhof adotou, Doktoro Esperanto (Doutor Esperança em Esperanto), quando publicou seu Unua Libro ( primeiro livro). 

O Esperanto não trouxe a paz e a humanidade compartilhada que Zamenhof esperava, mas não deixou de fazer barulho, organizando conferências e campanhas promocionais e causando controvérsias. Pelo que eu sei, o movimento continua vivo, e atraindo adeptos. Li que numa convenção compareceram esperantistas gays, do Partido Verde, vegetarianos, pacifistas e amantes de gatos, e todos usavam camisetas com os dizeres “Vivu! Revu! Amu!” (Viva! Sonhe! Ame! em Esperanto).

O sonho da unidade europeia e da moeda comum talvez não siga o caminho do Esperanto para a irrelevância, ou para apenas outra invocação melancólica na frente de uma camiseta. Mas periga. 

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