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Viver em estado de criança

'Sem imaginação, o que sobra é a barbárie'

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2021 | 03h00

Eu tenho medo de gente sem imaginação. Medo de gente que quando olha para uma cadeira só enxerga uma cadeira. Medo de gente que nunca transformou uma vassoura em um cavalo branco. Medo de gente que nunca fez de um sofá velho um navio pirata.

Sem imaginação, o que sobra é a barbárie. O ideal seria viver em estado de criança. 

Trocar as metas e certezas pelo caminho mágico de quem usa uma toalha nas costas com a convicção de saber voar. Trocar a rabugice especializada pela cozinha de faz de conta de um chef que ainda não aprendeu a usar garfo e faca.

Sem imaginação, o que sobra é a barbárie. O ideal seria viver em estado de criança.

Em casa, na pandemia, transformar a sala em uma floresta. Ao invés de videoconferência sobre o nada, reunir-se com amigos imaginários ao redor de uma fogueira de papel picado. Ser bombeiro, policial, médico e astronauta no espaço de 30 minutos. Pular a cerca que separa o sonho da realidade como quem pula o muro do vizinho atrás de uma bola de futebol. 

Sem imaginação, o que sobra é a barbárie. O ideal seria viver em estado de criança.

Sem imaginação não se sai da cama. Sem imaginação somos devorados pelos leões da vida cotidiana. Sem imaginação a vida é um passeio monótono – com sapatos apertados. Sem imaginação somos apenas chatos correndo para pagar meia dúzia de boletos e um aluguel.

Sem imaginação, o que sobra é a barbárie. O ideal seria viver em estado de criança.

Sem imaginação a vida é apenas a antessala do inevitável fim. Sem imaginação já estamos mortos – mesmo que ainda de pé, andando, comendo e trabalhando. Sem imaginação e só ‘bom dia’ e ‘boa noite’. Sem imaginação o amor é só uma pedra pontuda. 

Sem imaginação, o que sobra é a barbárie. O ideal seria viver em estado de criança.

Um país sem imaginação não encontra caminhos. Um país sem imaginação não promove igualdade. Um país sem imaginação é triste, violento e pobre. Um país sem imaginação é um convite à tirania. Um país sem imaginação não existe de verdade. 

Sem imaginação, o que sobra é a barbárie. O ideal seria viver em estado de criança.

Quando vejo meu sobrinho brincando, renovo minhas esperanças. Espero que a gente possa merecer o mundo que só existe dentro dele. Feliz Dia das Crianças, Henrique. 

*Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observador da vida urbana

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