VIVENDO EM UM SÓ INSTANTE

Para a pianista Berenika Glixman, cabe toda uma vida nos momentos que antecedem a entrada no palco

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2013 | 02h14

A neve europeia atrapalhou e Berenika levou dois dias para vir de Paris a São Paulo. Na tarde de quinta, foi direto do aeroporto para Heliópolis, conhecer o Instituto Baccarelli e a orquestra com que hoje se apresenta na Sala São Paulo. "Acabei de ouvir as crianças dos corais, que coisa linda, e amanhã vou ensaiar com a sinfônica, vou tocar o Beethoven, na Sala São Paulo. É um sonho, estrear esta peça naquele palco, e esses meninos. Tem tudo a ver, a primeira vez que ouvi esse concerto foi com a Maria João Pires, em Portugal. Lá e aqui se fala o português. Não pode ser coincidência. Nossa, espera, tá tudo muito rápido..." A gente espera, sem problemas. E começa de novo.

Do início. Berenika Glixman é pianista, tem 28 anos. Hoje, interpreta o Concerto n.º 4 de Beethoven ao lado da Sinfônica de Heliópolis, no concerto que abre a temporada do grupo e tem ainda a Sinfonia n.º 1 de Mahler (regência de Isaac Karabtchevsky). Ela nasceu em 1984, na União Soviética. Mas seu passaporte é israelense desde 1991, quando a família resolveu deixar o país de origem em busca da terra "onde encontraríamos pessoas como nós". A família judia, diz Berenika, sofreu todo tipo de perseguição na URSS. Ela era menina, não lembra dos detalhes. Na memória, ficou a lembrança de conversas cochichadas na sala de casa, em que se falava de KGB, além da sensação de que os pais pareciam sempre estar escondidos. "Daquele período, eu me lembro de não sentir que pertencia àquele lugar. O que é engraçado, porque ao chegar a Israel, também éramos tratados como gente de fora, estrangeiros que não pertenciam àquele ambiente."

A realidade, com o passar dos anos, mudou. Mas a sensação de ser "um outsider" não parece ter desaparecido. E talvez não seja exagero dizer que, entre duas pátrias, Berenika optou pela música. Os pais foram contra, desde o início. Eram músicos, assim como os avós, e os tataravós - gerações de cantores de ópera, instrumentistas e maestros. "Quando morávamos na União Soviética, tínhamos um piano em casa, mas ele estava sempre trancado à chave. É claro que em casa vivia-se a música de maneira forte, mas meus pais diziam sempre que não queriam aquela vida para mim. Mas, depois que mudamos para Israel, acabamos comprando um piano elétrico e minha mãe me ensinou as notas, o básico do básico. E era para ser isso."

Não deu certo o plano. E Berenika diz que, de uma hora para outra, foi como se "um buraco negro tivesse me sugado". "Tudo acontece muito rápido e você se dá conta de que não consegue se imaginar longe daquilo." Com pouco mais de 10 anos, ela então foi estudar na escola de artes Thelma Yellin (que leva o nome de uma violoncelista e pedagoga israelense) e no Conservatório Givataim. Anos mais tarde, entrou para a escola Buchmann-Mehta, em Tel-Aviv, onde atualmente completa sua formação. A instituição, ligada à Filarmônica de Israel, é presidida por Zubin Mehta - e o maestro não poupa elogios à pianista, que, segundo ele, "combina o mais alto nível de virtuosismo com paixão, temperamento e uma verdadeira compreensão do estilo e da arquitetura das obras". Em 2010, ele a chamou para substituir de última hora a pianista chinesa Yuja Wang em um concerto da orquestra. Foi sua estreia no circuito das grandes orquestras. Tocou o concerto n.º 2 de Prokofiev - e um crítico descreveu sua interpretação com o "hipnótica".

Um acorde. O temperamento quase selvagem da peça do compositor russo oferece um contraste ao concerto de Beethoven que Berenika interpreta hoje na Sala São Paulo, de caráter mais contemplativo. Como ela mesmo diz, a obra não se parece em nada com os três primeiros concertos do gênero escritos pelo compositor - assim como difere do de número 5, que seria estreado quatro anos mais tarde, em 1809. Até por isso, é uma peça querida do repertório, que ocupa lugar especial no coração tanto do público quanto dos intérpretes.

"Eu o ouvi pela primeira vez aos 15 ou 16 anos, em Portugal", lembra Berenika. "A solista era Maria João Pires e eu estava sentada na terceira fila. Beethoven normalmente escreve uma introdução orquestral que antecede a entrada do piano. Mas não aqui. É o piano que começa e eu não esqueço a sensação que tive ao ouvir aquele acorde solitário pela primeira vez. Assim como não me sai da cabeça o momento em que estarei sobre o palco da Sala São Paulo e vou eu mesma tocar aquelas notas."

Depois do acorde inicial, vem o que Berenika define como um diálogo fascinante entre orquestra e pianista. "É uma conversa que, em algumas passagens, como no segundo movimento, se transforma quase em uma oração", ela explica, ressaltando que esta é uma interpretação bastante pessoal sua. E é isso, afinal, que importa, não? "Acho que sim. Eu não me canso de ouvir gravações de todo tipo de pianista, há sempre algo a aprender com os grandes. Mas, em primeiro lugar, eu seria incapaz de imitar qualquer um deles. E, depois, como intérprete é preciso saber como eu quero me relacionar com determinada música, seja ela de Bach, Beethoven ou Bartók. A partitura precisa vir antes e a função do pianista é aprender a ler entre as notas, a mensagem que está ali escondida."

Chega a ser paradoxal - encontrar uma interpretação pessoal a partir do respeito incondicional ao que o compositor escreveu. Talvez seja menos paradoxo e mais mistério - e é nesse limite que precisa nascer e se desenvolver o intérprete. "Sei que disse que há uma mensagem do compositor e você me pede agora para identificá-la... É tão difícil. Não estou certa de que sou verdadeiramente capaz de colocar em palavras o que quero dizer. Um pianista fala quando está sentado no palco, ao vivo, quando há o público, a orquestra, a música. Fora desse ambiente, fica mais difícil. Há quem veja uma descrição de Orfeu descendo ao inferno nessa partitura, mas isso não foi dito por Beethoven, então... É mesmo difícil. Mas acho que há, neste concerto, de qualquer forma, algo de muito puro, e é por isso que falo em oração."

A conversa abandona a música em si - e volta para a importância que ela, de maneira geral, ganhou na vida de Berenika. "A existência para mim é a música e vai continuar a ser assim", ela diz. "Vejo projetos como esse, caminho pela favela e, de repente, me deparo com esse prédio e com tudo o que acontece aqui dentro e entendo que não é só música, não é só trabalho. É vida, que compensa todos os momentos difíceis, e não são poucos."

E que momentos são esses? "Há uma solidão profunda, inerente ao que faço. Acho que era disso que meus pais tinham um pouco de medo quando insistiam para que eu me afastasse desse universo. E estamos constantemente sob pressão, nunca podemos parar de estudar, no palco há sempre enorme responsabilidade. E, em meio a esse universo muito particular, há os deslocamentos, a rapidez, as viagens. Equacionar tudo isso não é algo que acontece naturalmente." Mas tudo isso, diz Berenika, fica em segundo plano durante um único e breve momento - aqueles segundo que, na coxia, antecedem a entrada no palco. "É um frio na barriga. Mas você então se dá conta de que poderia viver naquele instante para o resto da sua vida."

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