Vitrine da produção nacional

A Première Brasil de 2012 decola com a adaptação que Marcos Bernstein fez de Meu Pé de Laranja Lima

LUIZ CARLOS MERTEN / RIO, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2012 | 03h06

Na noite de abertura do Festival do Rio, a diretora artística do evento, Ilda Santiago, havia agradecido antecipadamente ao esforço de sua equipe, dizendo que a maioria das sessões seria em digital e todos os cuidados estavam sendo tomados para garantir a excelência técnica. Pelo visto, os cuidados não foram suficientes e, em apenas dois dias de Première Brasil, na sexta-feira e no sábado, pelo menos três exibições foram interrompidas para ajustar imagem e som. É um problema que extrapola o Festival do Rio. Diz respeito ao mercado como um todo, que se aparelha para o que já é irreversível - dentro de um par de anos, garantem especialistas, todas as projeções serão em digital. O mercado brasileiro está aparelhado para isso?

Maior vitrine da produção brasileira, a Première Brasil bate o próprio recorde e este ano apresenta 73 títulos divididos em diferentes seções e formatos - curtas e longas, ficções e documentários, retratos e música. No sábado à noite, passou o melhor filme até agora - Meu Pé de Laranja Lima, que Marcos Bernstein adaptou do livro famoso de José Mauro de Vasconcelos. Ator de Walter Hugo Khouri (em A Garganta do Diabo), José Mauro virou um autor de muito sucesso nos anos 1960, cujos livros, e especialmente O Meu Pé de Laranja Lima, vendem bem até hoje. Os críticos quase sempre foram duros com ele, deplorando menos a estrutura melodramática do que o apelo ao sentimentalismo.

Meu Pé de Laranja Lima foi filmado por Aurélio Teixeira e deu origem a duas novelas de televisão. Marcos Bernstein, roteirista de Central do Brasil (com João Emmanuel Carneiro) e diretor de Do Outro Lado da Rua, demorou uma década - dez anos! - para concretizar o projeto. No palco do Cine Odeon BR, cercado pela equipe, ele disse que seu filme mudou muito ao longos dos anos. De narrativa de época virou drama contemporâneo, a verba encurtou, foram muitos percalços, mas o que não mudou foi a dedicação de atores e técnicos que deram o melhor de si.

O filme recria o básico do livro - a história do garoto sofredor, que apanha do pai e conversa com a árvore do título -, mas resulta em outra coisa na tela. Por mais que José Mauro de Vasconcelos dissesse que Zezé, o pequeno protagonista de Meu Pé de Laranja Lima, não era ele, havia elementos autobiográficos na história, sim, e a adaptação de Bernstein os realça. O filme é sobre esse garoto que tem uma imaginação muito fértil e que vira escritor. Ele ganha de um amigo, o Portuga, a caneta com a qual escreve sua primeira história. Realiza o rito de passagem numa cena memorável - que não está no livro nem no filme antigo -, correndo contra o trem num desejo de superação.

A choradeira é sempre associada a Zé Mauro de Vasconcelos. Bernstein a evita - seu filme é seco. O repórter disse ao diretor que a vontade de chorar veio somente depois de a sessão concluída, ao se lembrar de cenas - a mãe que canta para o filho, tentando explicar para ele a complexidade do pai (e a atriz é a grande Fernanda Vianna, do Grupo Galpão, que já venceu o Kikito em Gramado por O Que Se Move). Bernstein observa - "É assim mesmo. As lágrimas vão vir na segunda vez". E ele diz isso com um sorriso, aliviado pelo efusivo aplauso que Meu Pé de Laranja Lima recebeu no fim da projeção.

Convidados. A vitrine da Première Brasil já está descortinando a melhor produção brasileira do ano. A Première privilegia filmes inéditos, mas filmes brasileiros já testados - e premiados - em outros festivais também estão aqui no Rio. Colegas, de Marcelo Galvão, que venceu Gramado, passou no sábado, no Odeon, antes de Meu Pé de Laranja Lima. O filme sobre trio de portadores da síndrome de Down que cai na estrada faz paródia de grandes êxitos internacionais, e o trio, que pega em armas - ou pelo menos assim parece para a polícia -, usa codinomes que remetem ao cult Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino. Colegas nasceu a despeito do preconceito - muitas empresas não queriam vincular sua marca a downianos. Apesar da carreira vitoriosa em Gramado - e no Rio, recebido com aplausos calorosos -, o filme tem problemas.

Os downianos são a sua razão de ser - sem eles não haveria filme, ou ficaria claro que a paródia não é tão divertida, que o ritmo claudica. O que carrega Colegas é o trio de protagonistas e o movimento de simpatia que eles produzem corre o risco de provocar um preconceito às avessas. É como se a gente tivesse de gostar de um filme que, no fundo, é 'legal', mas não é tão bom. No final da sessão, já havia gente antecipando que Colegas é o filme certo para o Oscar de 2014 e que, desta vez, a Academia vai se render ao cinema brasileiro - será?

Há muitos convidados internacionais por aqui. Os diretores de Pequena Miss Sunshine, Jonathan Dayton e Valerie Faris, vieram mostrar Ruby Sparks - A Namorada Ideal, uma espécie de Mais Estranho Que a Ficção mais sombrio, sobre escritor solitário que cria a garota de seus sonhos e ela adquire vida, mas o problema é que ele, como autor, a controla - e o amor, segundo a dupla de diretores, só é bom se for livre.

O coreano Im Sang-soo também esteve aqui com seu longa O Gosto do Dinheiro, que já havia concorrido em Cannes. Falou sobre o poder dos conglomerados, os verdadeiros detentores do poder e do dinheiro, no mundo atual. O argentino Daniel Burman, o norte-americano Roland Joffé (com Rodrigo Santoro, um dos protagonistas de Encontrarás Dragões - Segredo da Paixão), o ator Terrence Howard. Convidados e filmes não faltam. O Rio é uma festa de cinema.

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