Imagem Daniel Martins de Barros
Colunista
Daniel Martins de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Vitória sem Dia D

Quando começo a cuidar de alguém com depressão é muito frequente a pessoa perguntar por quanto tempo ela precisará se tratar

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2020 | 03h00

Quando começo a cuidar de alguém com depressão é muito frequente a pessoa perguntar por quanto tempo ela precisará se tratar. Ela ainda não marcou a terapia, não se inscreveu na academia, sequer passou na farmácia para comprar o remédio e já quer saber quando terá alta. 

Trata-se de uma pergunta capciosa, porque a depressão não tem uma causa única e depende de uma série de circunstâncias para melhorar totalmente. Não basta só tomar remédio, ou só fazer terapia, só reorganizar a vida. Precisa de um pouco de cada, num ajuste individual. E precisa de tempo. Por isso eu não respondo diretamente com frases como “Sua alta será em...”. Até porque quem pergunta isso na maioria das vezes não está preocupado de fato com a duração do tratamento, mas com a duração do sofrimento. “Quando vou ter alta?” muitas vezes quer dizer “Quando vou melhorar?”. 

Essa é uma resposta um pouco mais fácil de dar. Porque a melhora é um processo. Que se inicia já no momento do diagnóstico. Só de saber que aqueles sintomas de irritação, impaciência, desânimo, falta de motivação, sono ruim, etc, constituem um transtorno com nome e sobrenome, conhecido, tratável e na maioria das vezes curável, uma parte da angústia – ligada à incerteza do que está acontecendo – já diminui. 

A partir daí, explico para os pacientes, a melhora é gradual. Normalmente nas primeiras semanas não muda muita coisa, o que é uma prova de fogo para o vínculo entre médico e paciente, que tem que continuar se esforçando mesmo sem ver resultados. E mesmo depois disso os ganhos são sutis. Um dia, mesmo ainda triste e sem energia, a pessoa percebe que não se irritou numa situação que antes a tiraria do sério. Pouco tempo depois, ela nota que, apesar do sono ruim, acordou com humor melhor. Mais umas semanas e ela se surpreende rindo com os amigos e a família. Até que de repente nota que retornou ao seu humor de sempre, voltou a ser quem era e reconhece a si mesma novamente. 

No entanto, muitas vezes o melhor é que ela não volte totalmente ao seu normal. Justamente porque alguns aspectos de sua vida normal estavam envolvidos com o adoecimento. É bom que algumas coisas não voltem a ser como antes, portanto. 

Essa me parece uma situação bastante parecida com a da pandemia de covid-19. Assim que ela começou nós nos pusemos a perguntar quando ela acabaria. Com o passar do tempo, no entanto, tem ficado claro que sairemos dela como os pacientes saem da depressão. 

No começo tivemos que nos esforçar muito, sem vislumbrar resultados imediatos. Mais para frente a curva foi sendo achatada, dando sinais de esperança. Agora estamos na fase de ganhos progressivos, ainda que lentos. Abrem-se os shoppings com horários restritos. Dali a pouco estamos almoçando num restaurante a céu aberto. Mais umas semanas e já há pessoas de volta às academias, crianças voltando para as escolas. De repente nos veremos com a rotina restabelecida, retomando trabalho, estudos, lazer. 

Mas também, como no caso da depressão, será bom que nem tudo volte a ser exatamente como era antes. Porque alguns aspectos do mundo pré-pandemia fizeram parte do problema, e seria bom que mudassem de vez. 

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE  PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

Tudo o que sabemos sobre:
psicologiadepressão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.