Vitória de Brad Pitt e do marketing

Oscar para 12 Anos de Escravidão premia trabalho do ator e produtor e estratégia de divulgação montada por estúdio

UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL / LOS ANGELES, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2014 | 02h07

Em sua carreira, Brad Pitt recebeu três indicações para o Oscar como ator. Não venceu em nenhuma. Mas, ao subir ao palco do Dolby Theater, quando já era madrugada de ontem no Brasil, ele se sentia um homem realizado. Pitt foi um dos cinco produtores (ao lado de Dede Gardner, Jeremy Kleiner, o diretor Steve McQueen e Anthony Katagas) de 12 Anos de Escravidão, Oscar de melhor filme do ano. Para ele, mais que uma conquista profissional, foi uma consagração pessoal. Afinal, além de formar um dos casais mais fashion do momento com Angelina Jolie, Pitt divide com ela preocupações humanitárias. E a vitória de 12 Anos de Escravidão representou um passo adiante nessa luta.

O longa que detalha com cenas dolorosas a escravidão nos Estados Unidos do século 19 ganhou poucos mas importantes prêmios da Academia: além de melhor produção, faturou também o de atriz coadjuvante (Lupita Nyong'o) e roteiro adaptado (John Ridley). O grande vencedor foi Gravidade, com sete estatuetas, a maioria porém, de categorias técnicas, com exceção de melhor direção para Alfonso Cuarón. E o grande perdedor foi Trapaça, que não levou nenhum prêmio.

"Eu amo este filme", disse Brad Pitt, depois da cerimônia, para jornalistas de todo o mundo. "É um filme importante porque nos ajuda a entender nossa história, mas não para ressaltar culpas, mas para compreender quem somos hoje e os motivos de enfrentarmos problemas específicos que temos atualmente. E, o mais importante, o que podemos ser no futuro."

Foi justamente o tom desse discurso humanitário, que ganha credibilidade no discurso de Pitt, a força de divulgação do filme. Nas últimas semanas, quando a votação para o Oscar já caminhava para o final, a produtora do longa, Fox Searchlight, lançou uma campanha ousada: distribuiu cartazes com um close do ator Chiwetel Ejiofor e a chamada "É a hora". Críticos interpretaram a mensagem como uma forma de pressão nada sutil nos eleitores, induzidos a respaldar a revisão de uma importante e dolorosa fase da história americana.

Até mesmo a apresentadora da entrega dos prêmios, a comediante Ellen DeGeneres, tocou na ferida com uma piada desafiadora, ao dizer, no início da cerimônia, que, se 12 Anos de Escravidão não levasse a principal estatueta, os eleitores ali presentes seriam racistas.

Para o diretor Steve McQueen, no entanto, o momento, era para festejar, seja com um salto no palco ("Só pensava na música do Van Halen, Jump") ou ainda com carinhoso beijo no rosto de Pitt, que brincou dizendo ser o cineasta seu atual namorado.

"A vitória do nosso filme é um sinal de desenvolvimento", disse ele, na entrevista coletiva. "É marcante olhar agora para aquele período especial da história e colocar em primeiro plano personagens que sempre ficaram à margem. Acredito que o público de hoje está preparado para esse tipo de narrativa que, apesar de dolorosa, vem sendo encarada de frente. Afinal, se não conhecemos nosso passado, nunca teremos a chance de projetar nosso futuro."

A última frase pode servir também para Ellen DeGeneres - depois do fiasco do ano passado, com as piadas grosseiras de Seth Macfarlane, a Academia apostou na comediante e seu humor provocativo. E os primeiros números de audiência mostram que a escolha foi acertada: cerca de 43 milhões de pessoas nos EUA assistiram à transmissão da cerimônia pela TV no domingo, contra 40,3 milhões em 2013, um aumento de 6%. Foi o programa mais visto no final de semana.

Mas a Academia está de olho também em outro tipo de audiência, a da internet. E os números também foram animadores - segundo levantamento do Twitter, aconteceram 14,7 milhões de Tweets durante a transmissão do show e outros 17,1 milhões antes e depois, ou seja, durante a passagem dos artistas pelo tapete vermelho e os 10 minutos depois de encerrada a cerimônia. O pico de audiência aconteceu quando Ellen reuniu estrelas para uma foto no palco: a selfie foi retuitada quase 2 milhões de vezes.

E o Brasil, mesmo sem competir, foi lembrado com a homenagem ao cineasta Eduardo Coutinho, assassinado em fevereiro. Sua imagem foi mostrada ao lado de outros grandes, que morreram nos últimos meses. Só faltou Alain Resnais, morto no sábado.

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