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Ruth Manus
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Vítimas das rifas

Neste Natal, estou concorrendo a uma cesta de chocolates, um skate elétrico e um coelho

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2017 | 02h00

Acredito que o mundo se divida basicamente em duas espécies de pessoas: aquelas que são vítimas de rifas e outros potenciais bilhetes premiados e aquelas que não são. Especialmente em meses como novembro e dezembro, esse traço de personalidade se evidencia muito, intensificando tal dicotomia.

As rifas geralmente são oriundas de instituições ou vendidas por pessoas em condições vulneráveis. Nunca vi a Apple, a Coca-Cola ou os magnatas da indústria das armas vendendo bilhetes para sorteios no Natal. E é importante destacar, as rifas são ótimas, longe de mim condená-las. Geralmente, servem a causas nobres e merecem existir e prosperar. O problema não é a rifa, mas sim essas pessoas desorientadas como eu, que compram absolutamente todas as rifas que passam pelo seu caminho, sem nenhum tipo de critério de escolha.

As vítimas das rifas costumam ser pessoas que associam alguns traços de personalidade: têm bom coração, são um tanto quanto abestalhadas, não sabem dizer não e lembram um pouco aqueles mocinhos ingênuos das novelas de época da Globo, no horário das seis. Detesto, realmente detesto me adequar a esse conceito.

As pessoas que não são vítimas das rifas também compram esse tipo de bilhete, mas de acordo com seu livre-arbítrio, e não guiadas por uma cega necessidade de aceitar todas as ofertas que lhe são feitas. Existe nelas, de fato, um poder de escolha. A causa me interessa? O prêmio seria bem-vindo na minha vida? O valor da rifa é justo?

Mas nós, as vítimas das rifas, compramos todas, absolutamente qualquer uma, não importa qual. Não temos qualquer poder de decisão. Rifas de estudantes tentando financiar a festa de formatura, rifas de creches, rifas de escoteiros, rifas de instituições filantrópicas, rifas de festa da igreja, rifas do Corpo de Bombeiros.

E assim, concorremos aos mais variados prêmios inúteis: uma casa de cachorro (e, obviamente, a pessoa que comprou essa rifa não tem cachorro), duas noites em um hotel terrível da região, um papagaio, uma mala de carrinho cor de laranja com abomináveis estampas verdes. Enfim, num dado momento, as vítimas das rifas se flagram torcendo, com todas as suas forças, para não ganharem o prêmio. Surgem angústias do tipo “mas ainda que minha tia Maria queira a casinha de cachorro, eu não sei se ela cabe no meu carro, nem sei quando vou ter tempo de levá-la à casa da tia, em Pindamonhangaba”.

São muitas as dificuldades de não saber dizer não às rifas. Outro dia, fui buscar minha enteada na escola e uma menina de uns 9 anos veio tentar me vender uma rifa. Custava um euro. Eu só tinha uma nota de cinco e ela não tinha troco. O que eu fiz? Comprei cinco rifas. E depois não tinha dinheiro suficiente para o táxi. 

Houve um outro dia em que eu comprei uma rifa de um escoteiro gordinho de uns 11 anos. Uns 15 minutos mais tarde, um colega seu, com óculos fundo de garrafa, veio tentar me vender outra. Uma pessoa que não é vítima das rifas, simplesmente diria que já havia comprado do outro menino. Mas uma verdadeira vítima das rifas é incapaz de fazer isso. Ela pensa “coitadinho, ninguém deve comprar dele porque ele usa óculos fundo de garrafa”. E compra. Depois, a notícia se espalha e aparece a menina de 9 anos banguela de canino, a baixinha da voz esganiçada e o escoteiro mais novo, ruivo e cheio de sardas. Como dizer não para qualquer um deles?

E assim as vítimas das rifas vão enobrecendo sua alma e dilapidando seu patrimônio, ajudando causas relevantes e perdendo o rumo. Neste Natal, estou concorrendo a uma cesta de chocolates, que vem a calhar com a minha dieta, um skate elétrico, um coelho e a dois bilhetes para assistir ao musical do Mágico de Oz. Como de costume, estou aqui torcendo para não ser sorteada em absolutamente nenhuma delas. Deus me ajude.

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