Visual do agente X-9 é aula de HQ

Devir Livraria lança histórias do herói criado por Dashiell Hammett e Alex Raymond no olho do furacão dos anos 30

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2011 | 00h00

Era um tempo em que os homens chamavam sua garota de "pequena notável". Era preciso desviar de gente traiçoeira a cada dois passos, e só com os engenhos da mente e dos punhos um homem poderia fazer a verdade prevalecer.

Essa era a circunstância em que o Agente Secreto X-9 surgiu e vingou. Corriam os anos 1930, os Estados Unidos se viravam no meio de uma recessão e dois dos maiores artistas daquela época, Alex Raymond (o desenhista de Flash Gordon e Nick Holmes) e o escritor Dashiel Hammett, o autor de O Falcão Maltês (com Humphrey Bogart como protagonista, e dirigido por John Huston, tornou-se um dos maiores clássicos do cinema) se juntaram para tornar um desses detetives da alma humana um herói eterno.

Agente Secreto X-9 foi uma bíblia para gerações de artistas gráficos, cineastas, cartunistas. Toda a exuberância da cultura pop, que virou movimento nos anos 1960, já estava ali representada nos quadrinhos de Alex Raymond. "A imaginação sem limites de Alex Raymond inspirou a mim e muitos outros a seguirmos nossas próprias fantasias", disse o diretor de cinema George Lucas, de Guerra nas Estrelas.

E está de volta. A Devir Livraria acaba de lançar um álbum com as aventuras da dupla Hammett & Raymond, desenhadas e escritas entre janeiro de 1934 e novembro de 1935.

Alex Raymond (1909-1956) foi um dos maiores artistas do século 20. Esse álbum é o registro de seu encontro com outro gênio, Dashiel Hammet, boêmio inveterado que já tinha certa fama àquela altura - quando foi convidado para fazer uma tira pelo magnata da mídia William Randolph Hearst ("modelo" do filme Cidadão Kane, de Orson Welles).

"Quero um detetive tão durão quanto (Dick) Tracy, mas capaz de resolver mistérios intrincados!", bradou o velho lobo de imprensa. "Só existe um escritor capaz de nos dar isso. Chamem Dash Hammett!". Hammett só topou porque precisava de dinheiro. Para rivalizar com o sucesso de Dick Tracy, surgiu um artefato artístico de alto artesanato.

"É uma parceria importantíssima. Primeiro, porque Hammett é o maior escritor policial de todos os tempos, elevou o romance noir americano ao nível da tragédia grega. E há os desenhos maravilhosos de Alex Raymond. Ele tinha um tipo de visão incrível desde que surgiu, ainda garoto, e se tornou um dos maiores, ao lado de Milton Caniff e Al Foster", diz o especialista em quadrinhos Álvaro de Moya.

O agente X-9 estreou em 22 de janeiro de 1934, há 77 anos. "E, como era de se esperar de qualquer história de Hammett, os leitores foram arremessados diretamente para a ação, sem mais delongas. O estilo "classudo" e dinâmico de Raymond combinou perfeitamente com a narrativa do escritor, e pode-se dizer que a série começou com o pé direito. No entanto, com o passar das semanas, os leitores começaram a se sentir meio perdidos em meio à trama complexa desenvolvida por Hammett, que parecia estar se divertindo em escrever o roteiro, que refletia bastante o que ele já havia feito em seus outros livros de sucesso. Na verdade, os leitores das tiras de jornais estavam mais acostumados a histórias curtas e simples, sem muitos requintes literários", escreve o editor Leandro Luigi del Manto, responsável pela edição.

O talento de Hammett era reconhecido até por seus pares. "Dashiell Hamett escrevia cenas que pareciam não ter sido escritas por ninguém antes", disse o escritor Raymond Chandler. Seus diálogos eram cheios de sarcasmo e ironia. Quando o agente X-9 escapa de um porão em chamas, salvo pela insidiosa Judy, esta lhe faz uma proposta: "O que acha de fugirmos juntos para o México ou outro lugar?". Ao que o herói responde: "Há? Olha, eu me sentiria mais seguro lá dentro".

Os encontros com as garotas são sempre ocasionais e cheios de malícia. "Quem é esse tipo, isso me cheira a encrenca", diz um rufião ao avistar o X-9. Ao que a garota responde rápido: "Eu gostaria de topar com uma bela encrenca de 1m80 assim".

Ao ser lançado, nos anos 1980, o Caderno 2 de O Estado de S.Paulo republicou as histórias do Agente X-9 de Hammett e Raymond, com bastante sucesso. X-9 foi popular no Brasil em certa altura. Virou até nome de escola de samba, primeiro em Santos e depois em São Paulo. O carnavalesco santista Ademir Fontana, certa vez, falando à reportagem, explicou que o nome vem de uma revista policial em quadrinhos que existiu há cerca de 60 anos e tinha um determinado Agente X-9. "Eram desenhos feios." Agora, os carnavalescos da escola vão poder rever sua opinião. Eram desenhos estonteantes.

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