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Vista descansada

O isolamento social nos leva finalmente a ver a pessoa ou coisa a nosso lado

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2020 | 03h42

Otto Lara Resende diria que é vista cansada. Nada a ver, no caso, com presbiopia, esse distúrbio da visão do qual ninguém escapa, e que nos obriga a ir encompridando os braços para ler. Quase sempre naquela fase da vida que os franceses chamam de “quarantaine”, do final dos 39 anos ao derradeiro dia dos 49. Isso que aqui chamamos de “os enta”: fulano entrou nos enta – e deles nunca sairá, a menos que se torne centenário.

Não é disso que o Otto fala em Vista Cansada, cuja leitura recomendo, seja no livro Bom Dia para Nascer, seja no Portal da Crônica Brasileira (cronicabrasileira.org.br), do Instituto Moreira Salles. Leia já, mas não antes, por favor, de me fazer companhia até o fim desta conversa. Prometo ser breve, e vou sem mais delongas ao que o Otto chamou de vista cansada: uma banalização do olhar, tão descuidado que acabamos vendo sem de fato ver. A coisa ou a pessoa está no nosso campo de visão, mas é como se não existisse.

A léguas do enjoativo tom de autoajuda, Otto Lara Resende saca o exemplo do porteiro com quem você cruza, anos a fio, no saguão do prédio onde trabalha. Na realidade, o vê apenas de raspão, como desimportante detalhe na paisagem – até o dia em que, já não estando ele no balcão por motivo de falecimento, você finalmente se dá conta de que nunca o viu direito, nunca reparou naquela criatura da qual não sabe mais que o nome, ou nem isso. Para ser notado, crava o Otto, o porteiro precisou morrer.

*

Só mesmo uma quarentena – não a “quarantaine” francesa, que essa para mim infelizmente já vai longe – para abrir meus olhos, botar lentes corretivas na minha vista cansada. Se for o caso de calçar o papo com sabedoria de graúdos, que seja com o André Breton do Manifesto Surrealista, quase um século atrás: “O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com o seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual”. Embora lamentável, é quase fatal que seja assim, quando o cotidiano parece arremedar o entra-e-sai daquela portaria de edifício. 

Vale para coisas, vale também para pessoas. Li outro dia que o isolamento social está pondo a pique uma fartura de uniões aparentemente sólidas, cujo desmoronamento teria a ver com a overdose de convívio agora compulsório. Não espantaria saber que em alguns casos cada qual saiu por uma porta, afinados pela última vez. Dizia ontem uma querida amiga, num desses telepapos em que cada um de nós é um quadradinho no smartphone, na tela do computador: claro que viver juntos para sempre é o que todos queremos – mas precisa ser juntos o tempo todo, qual xifópagos?

A boa administração do amor, disse a jovem senhora, embarcada faz tempo num casamento que a faz declaradamente feliz, pede às vezes “uns parênteses” na coabitação, uma “separação de bens” que dê sentido literal ao idílico “meu bem pra cá, meu bem pra lá”. Tem gente casada, ela observa, que já não sabe o bom que é sentir saudade de seu par. 

Nessa altura, alguém que não era a Poliana levantou lebre na direção oposta: mas será que a pandemia não pode provocar também uma reação em sentido contrário, na qual a coabitação forçada, exatamente, seria propícia à (re)descoberta de encantos e atrativos na cara-metade? Só vendo, desdenhou a outra, e recomendou considerar como pura ficção aquela história de inesperada ressurgência de vulcão extinto, na letra do Ne me Quitte Pas de Jacques Brel.

Ninguém, nos quadradinhos da tela, reclamou quando, diante da ameaça de tornar-se videoconferência psi, o que era papo de amigos voltou ao que era antes. 

*

De minha parte, teria o que dizer, se a alguém interessasse, sobre a vista cansada que resvala sobre a barafunda – simpática, porém barafunda – onde vivo na exclusiva companhia de mim mesmo. Quando menino, não existindo ainda a palavra “tranqueira”, minha mãe chamava de “bilongues” as variadas inutilidades que seu filho acumulava. Não me lembro se com esta grafia, “bilongues”, do inglês belongs, está nas histórias de Monteiro Lobato, para designar os pertences, a coisarada com que a Emília atulha a sua “canastra”. 

Também eu tinha, tenho ainda, a minha canastrinha – na verdade, uma caixa de madeira laqueada em tom creme, do tamanho de uma caixa de sapatos, presente, veja você, justamente de quem zombava de minha compulsão por bugigangas. Famosa, aliás, para além dos muros lá de casa. Me lembro do dia em que, passando ao lado de uma roda de adultos, na fazenda, meu pai me fez em espetáculo: mandou esvaziar os bolsos, operação que tomou tempo e desatou gargalhadas. Parte do conteúdo das algibeiras com certeza foi parar na canastrinha. A qual rodou comigo por todos os endereços que tive, excetuados os de Paris. Nos vagares da prisão domiciliar que a covid-19 impôs, a canastrinha e seu conteúdo, como tanta coisa mais neste cafarnaum doméstico – e haja quinquilharia, cada item com sua história & memória –, têm sido objeto de uma vista agora descansada. Se não for cremada com seu dono, a canastrinha de bilongues, quase tão idosa quanto ele, até que poderia acolher as suas cinzas.

*É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DESATINO DA RAPAZIADA’

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