Visões dos arredores do cais

Um tema da modernidade em mostra com obras criadas entre os anos 20 e 60

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2012 | 03h09

Lasar Segall publicou em 1944 o álbum Mangue, edição que reunia obras gráficas que ele criou, entre as décadas de 1920 e 1940, a partir do tema da prostituição na região do cais do Rio de Janeiro. O Mangue, como era conhecida a zona de meretrício carioca naquela época, não apenas fascinou o pintor, escultor e gravador, como uma série de outros artistas, intelectuais, sambistas. "Aquilo era uma cidade dentro da cidade, com muita luz, muito movimento, muita alegria", afirmou o poeta Manuel Bandeira.

Nesses trabalhos, Segall "volta-se, sobretudo, para questões sociais, preocupa-se com a situação de solidão e miséria, retrata os ambientes como observador atento e não como um cliente, um usuário", afirma Fabio Magalhães, curador da mostra Poéticas do Mangue, coletiva que o Museu Lasar Segall inaugura amanhã para convidados e a partir de domingo para o público. A exposição apresenta uma centena de obras, de diversos criadores que marcam, de certa maneira, um período da modernidade.

São pinturas, aquarelas, desenhos e gravuras, figurativos e produzidos entre os anos 1920 e 60. Fabio Magalhães não se fixou apenas em selecionar obras de artistas brasileiros, como também estrangeiros. Segall (1891-1957), de origem lituana, mas radicado no Brasil, é o criador que dá força motora à exposição, não apenas por ter editado o álbum de desenhos Mangue e ser o artista principal do museu que leva seu nome. No início do século 20, quando viveu na Alemanha, ele se interessou pelo expressionismo e fundou em 1919, na cidade de Dresden, o Dresdner Sezession Gruppe, coletivo ao lado de Otto Dix, Conrad Felixmüller e Otto Lange, entre outros criadores. Sendo assim, obras de Dix, Lange, Walter Jacob e George Grosz, por exemplo, também estão na mostra.

"O expressionismo alemão, já nos primórdios do século 20, abordava com frequência temas da vida boêmia, para criticar a decadência dos costumes burgueses", afirma o curador. Os colegas de Segall tornam-se, dessa maneira, o que seria "influência" para os artistas brasileiros, destaca Fabio Magalhães.

O carioca Di Cavalcanti (1897- 1976) é um deles. Um conjunto de obras do artista o representa como um dos criadores que mais exploraram suas experiências no Mangue do Rio de Janeiro - não apenas como observador, mas como frequentador mesmo - em seus trabalhos. As mulheres e a temática nacionalista baseada no cotidiano são, geralmente, identificadas nas obra de Di Cavalcanti. "Nas cenas de bordéis, seus desenhos revelam intensa proximidade e, até mesmo, certa promiscuidade com os assuntos tratados. Sua arte flui como experiência vivenciada, o desenho surge como um ato de intimidade amorosa", define Magalhães. "No álbum Fantoches da Meia-Noite, publicado em 1921, ele retrata figuras notívagas, com grã-finos, poetas e prostitutas", conta o curador.

Há ainda, na mostra (com obras emprestadas de diversas instituições), a delicadeza surrealista do pernambucano Cícero Dias (1907-2003), como na aquarela O Sonho da Prostituta, da década de 1930. Criações, também, de Antonio Gomide, Manoel Martins, Poty Lazzaroto, Guido Viaro e Maciej Babinski.

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