Visões de Nelson

Para diretores, dramaturgo tem mérito de propor amplo leque de leituras

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2012 | 03h10

Especialista - para não dizer devoto - em Nelson Rodrigues, o diretor Marco Antônio Braz escolheu dois dos mais populares textos do dramaturgo para celebrar o seu centenário.

Tanto Boca de Ouro quanto A Falecida mereceram do autor a denominação de "tragédia carioca". Em ambas, o pano de fundo é a zona norte do Rio. Os personagens têm uma dimensão real, palpável. São bicheiros, sambistas, torcedores de futebol. Mas o autor não abdica da dimensão psicológica, quase mítica, que empresta a essas figuras. "O Boca de Ouro traz algo muito particular do Rio de Janeiro", diz o ator Marco Ricca sobre o bicheiro que nasceu em uma gafieira, não conheceu a mãe e busca redenção na riqueza. "Mas, ao mesmo tempo, está lidando com um argumento de apelo universal."

A visão é compartilhada por Maria Luisa Mendonça, intérprete de Zulmira, a suburbana que sonha com um enterro grandioso, em A Falecida. "Me surpreende a maneira como são personagens multifacetados. É um trabalho de desvendar camadas." Tal como o indivíduo fragmentário que habita os dramas de Pirandello, aqui cada ser surge como um amálgama de subjetividades.

Para além da complexidade dos personagens, Nelson oferece outros percalços para aqueles que enveredam pela sua ficção. "A maior dificuldade na hora de montá-lo é a linha sempre tênue entre tragédia e comédia", observa Braz.

O hibridismo de gêneros é uma das chaves para compreender as formas variadas com que cada diretor se apropria desse universo. A mostra Agosto de Nelson Rodrigues, que a Secretaria Municipal de Cultura realiza nos seus teatros, reúne dez montagens do autor. E põe em relevo essa pluralidade de olhares. Para fazer a tragédia Senhora dos Afogados, Zé Henrique de Paula opta por uma leitura musical e aproxima a trama de mortes e incestos das canções de Chico Buarque.

Já o grupo Os Satyros, em sua versão de Vestido de Noiva, consegue dicção própria ao não reverenciar a encenação histórica de Ziembinski. Prescinde da habitual divisão da história em três planos: realidade, memória e alucinação. Abusa dos recursos multimídia e de temas de rock.

Quem também se mostra bem pouco reverente à literatura rodriguiana é Nelson Baskerville. Sua versão de Os Sete Gatinhos é anárquica, com excesso de elementos e ênfase no grotesco. "Por mais que você exploda o texto do Nelson, ele continua mantendo a sua essência, a sua loucura", pontua Baskerville.

O caminho é oposto ao de Marco Antônio Braz, que valoriza cada palavra, inclui as rubricas e faz referências explícitas a encenações anteriores. "O que estamos tentando fazer é colocar o Nelson em outro patamar. É como quando você faz Shakespeare e se apropria de tudo o que já foi feito antes", considera.

Outro veterano na obra de Nelson Rodrigues que engrossa o coro de homenagens é o diretor Luiz Arthur Nunes. Em Rodriguianas: Tragédias para Rir, que abre temporada no dia 7, Nunes toma os contos de A Vida Como Ela É. Descobre em textos que não foram escritos originalmente para o palco, um inesgotável manancial teatral.

O expediente é semelhante ao de uma montagem anterior do diretor, de 1991. Mas o resultado, ele acredita, bastante distinto. "Minha visão dos contos mudou. Mantenho o olhar irônico, cômico. Porém, enfatizo mais outros aspectos, como a perversidade", diz Nunes. "Assim como todo grande autor, ele é um universo muito vasto, que propõe a cada artista um amplo leque de leituras."

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