Visões de ciência e história

O cientista Luiz Hildebrando rememora a sua trajetória

Nísia Trindade Lima, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 03h10

Crônicas Subversivas de um Cientista: o título não poderia ser mais adequado. Ainda que tenha adquirido significados diversos, a palavra crônica vem do grego chronikós e indicava, em sua origem, uma relação de acontecimentos ordenados segundo o passar do tempo. Foi a forma por excelência da narrativa histórica até o século 19, pautada por um modo de contar no qual os eventos assumiam o primeiro plano. Ao escolher este gênero, o conceituado cientista Luiz Hildebrando nos conduz a muitos cenários - do bairro do Paraíso, onde viveu na infância, às manifestações pelo monopólio do petróleo e contra a Guerra da Coreia, na Praça da Sé, em São Paulo, e ao sertão da Paraíba, região em que, recém-formado em Medicina, realizou, sob a orientação de Samuel Pessoa, pesquisas em parasitologia médica. Professor da Faculdade de Medicina da USP, Pessoa era, então, uma referência de "vocação científica com engajamento", lema que o autor escolheu para se referir às suas próprias escolhas profissionais e políticas.

Após o golpe militar de 1964, somos levados a novos lugares: o navio-prisão Raul Soares, no Porto de Santos; o câmpus da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, com seu camarada de laboratório e militância, Erney Camargo; Argel, com Oscar Niemeyer, para atuar na reforma universitária; o sótão do Instituto Pasteur e os bares nos quais se reuniam os exilados brasileiros, em Paris. Por fim, acompanhamos a viagem de volta e conhecemos as razões de sua escolha por viver e pesquisar na Amazônia.

O interesse pela política é revelado de modo despretensioso: foi a experiência da Segunda Guerra a primeira motivação, instigada pelo professor de história do Ginásio do Estado, mas sobretudo pelos noticiários da BBC. Luiz Hildebrando aderiu à Juventude Comunista do Brasil aos 16 anos. A este engajamento atribui a escolha da profissão médica, o que o levou a não seguir a tradição da família, formada por engenheiros e funcionários públicos. A filiação ao PCB figura como um evento decisivo na trajetória do cientista e seu livro nos permite avaliar a presença marcante do partido na comunidade científica nos anos 50 e 60 do século 20.

Uma trajetória na ciência também marcada pela vida pública, como se constata no capítulo no qual descreve alguns episódios que antecederam a criação da Fapesp. Mas havia também vida intensa no laboratório e, neste aspecto, destaca-se seu trabalho em Biologia Molecular no Instituto Pasteur. Lá, reabrindo as gavetas da consagrada pesquisa de François Jacob sobre a regulação genética de bactérias, Luiz Hildebrando chega, com Harvey Eisen e Jacob, à identificação de um novo gene. Este achado é descrito com a mesma emoção estética que experimentara com Samuel Pessoa no sertão da Paraíba.

O cientista apresenta o livro como uma miscelânea de situações, contextos sociais e momentos políticos, misturados a coisas corriqueiras aparentemente de interesse apenas para os que as viveram. Felizmente a busca de coerência foi superada, a partir da compreensão de que escreveu uma história de gentes: gentes que conheceu. E aí está um dos maiores méritos do livro: não há um tom grandiloquente ou intenção edificante; sobra, por outro lado, sensibilidade e humor na apreensão dos homens e mulheres protagonistas dessas crônicas. Contudo, o autor contrapõe a História com H - que explica as grandes linhas de uma época - e a história assentada nas pequenas escolhas individuais. Pois é exatamente tal jogo de escalas que confere sabor especial à obra, reforçando, ainda que inadvertidamente, as perspectivas históricas e sociológicas que questionam a forma disjuntiva de perceber a relação indivíduo/sociedade no tempo.

O fato é que, ao conduzir-nos por sua história pessoal, o autor leva-nos, ao mesmo tempo, a uma viagem pela história da ciência, da sociedade e da política no século 20. Foram anos densos e marcados pela dificuldade de institucionalização da democracia. O livro revela, assim, as tensões de quem viveu importante período de sua formação intelectual e afetiva - da adolescência à juventude - sob o signo do Estado Novo, da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria. E os anos de maturidade, a exemplo de tantos outros de sua geração, no exílio imposto pelos anos da ditadura militar. De volta ao Brasil, em 1998, o cientista optou por viver em Rondônia onde participa atualmente da construção da Fundação Oswaldo Cruz naquele Estado e vem contribuindo para a proposta de redução das desigualdades regionais e para o desenvolvimento de pesquisa científica comprometida com a melhoria das condições sanitárias.

A resposta à pergunta sobre o interesse histórico de sua narrativa pode ser múltipla e certamente nos leva ao questionamento de qualquer determinismo. As histórias pessoais são feitas de condicionantes sociais, interesses, valores e paixões, o que, aliás, não as distingue radicalmente da história da sociedade. É interessante, a propósito, pensar que, no âmbito da École des Annales, com sua crítica à história factual e ao peso das biografias de indivíduos notáveis, característicos do século 19, surgiu, especialmente com Lucien Febvre, um movimento de valorização do subjetivo. Em sua perspectiva, na operação que vai da vida afetiva, do que há de mais subjetivo, para o plano da vida coletiva residia o interesse do historiador.

O leitor encontrará nas crônicas de Luiz Hildebrando excelente matéria para este tipo de reflexão e uma sensível confluência de memória e história. Trata-se também de um testemunho de que ciência e política constituíram uma só vocação para este cientista e tantos outros de sua geração. A eles devemos muito do reconhecimento internacional a áreas tradicionais e emergentes da pesquisa realizada no País e também a convicção, hoje tantas vezes posta em xeque, de que é possível unir ciência de alta qualidade e engajamento na defesa de uma sociedade mais justa.  

NÍSIA TRINDADE LIMA É PESQUISADORA DA CASA DE OSWALDO CRUZ E VICE-PRESIDENTE DE ENSINO, INFORMAÇÃO, COMUNICAÇÃO DA FIOCRUZ

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