Visita aos clássicos

Oréstia, trilogia de Ésquilo dirigida por Malu Galli, chega à cidade

O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2013 | 02h10

Alguma estranha coincidência mobiliza o teatro, ao menos aquele que se faz no País, nos últimos meses. Afinal, havia muito não se viam tantas montagens das tragédias gregas. Em 2012, os autores mais populares no palco não foram os novos dramaturgos. Mas os fundadores Sófocles, Ésquilo e Eurípides.

É nesse contexto que se coloca Oréstia, espetáculo dirigido por Malu Galli e Bel Garcia que estreou no Rio em novembro e abre, amanhã, temporada em São Paulo. Último dos escritos de Ésquilo, a obra é uma trilogia composta pelos textos Agamêmnon, Coéforas e Eumênides.

Se dissermos que a peça trata do destino da família dos Átridas, após a Guerra de Troia, talvez soe excêntrico o desejo de revisitá-la. O que emerge da criação milenar, porém, não é apenas uma longínqua narrativa de interesse histórico.

Assassinatos, traições e vinganças se sucedem na trama grega. Crimes que evocam sentimentos primordiais do homem "civilizado". Transcendem o teatro. Estão na origem de disciplinas essenciais, como a psicanálise e o direito. "São histórias formadoras do nosso imaginário, da nossa maneira de pensar e ver o mundo. Por isso, serão sempre necessárias", diz Malu. "Falam daquilo que é atemporal."

Antes de partir para Troia, Agamenon havia entregue sua filha Ifigênia, em sacrifício aos deuses. Quando a guerra termina, o guerreiro vitorioso volta para casa. Mas é assassinado por sua mulher, Clitemnestra. Orestes, por sua vez, decide vingar a morte do pai e, para isso, mata a própria mãe e seu amante. Uma maldição se abatera sobre a família: os Átridas farão jorrar o sangue dos Átridas.

É comum que se questione hoje o sentido da tragédia. Em um mundo em que o mal, em todas as suas acepções, tornou-se banal, o que ainda pode soar trágico? Talvez não seja essa propriamente a pergunta a ser feita.

Em cada uma das obras dramáticas de Ésquilo está sublinhada a fragilidade do humano, a falência de nossas ilusões de controle. Assim como faz a contemporaneidade, o escritor grego põe sob suspeita a onipotência do indivíduo, confronta-o com aquilo que o transcende e soa inexplicável. "A história das tragédias é sempre a história das escolhas humanas. Tentamos escolher sempre ouvindo a nossa voz interior e analisando as circunstâncias externas. Nossas ações nascem desse balanço, mas estamos sempre às cegas, nos baseando em leituras puramente subjetivas para tentar fazer a melhor escolha", comenta Malu.

Para construir sua encenação, a diretora elege um grupo de seis atores. Além dela mesma, estão em cena Luciano Chirolli, Gisele Fróes, Otto Jr., Daniela Fortes e Julio Machado. Eles se revezam para encarnar todos os personagens. E também se postam diante de microfones para dar corpo ao coro - elemento essencial da tragédia.

Na pólis grega, cabia ao coro desempenhar um papel de personagem coletiva, fazendo comentários sobre as ações representadas. "Era uma parte cantada e dançada da tragédia, que trazia um ponto de vista emocional, instaurava um estado de alma na plateia", observa Malu.

A música composta por Rômulo Fróes, com participação de Cacá Machado, cumpre função semelhante no espetáculo. Aproxima o espectador de hoje e serve para fazer a narrativa avançar. "Por isso não escolhi um autor de trilhas, mas um compositor que tivesse a ver com o universo do Ésquilo." / M.E.M.

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