Visibilidade para o que era segredo

Em Berlim, a diretora e seus atores contaram como assumiram o compromisso de colocar a barbárie na tela

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 23h54

Como embaixatriz da ONU, Angelina Jolie tem usado seu prestígio para minorar o sofrimento de vítimas de conflitos na África e na Europa. Ela não é primeira nem será a última a fazer isso. Audrey Hepburn e Lady Di também exerceram a função humanitária. Angelina é hoje a maior estrela de Hollywood - é verdade que muito do seu mito está associado à figura do marido, Brad Pitt, e tanto isso é verdade que os dois são reconhecidos como uma entidade, e um rótulo 'Brangelina'.

Ambos estiveram em Berlim, em fevereiro, para apresentar Na Terra de Amor e Ódio. No original é In the Land of Blood and Honey - de Sangue e Mel. Vestiram longo e black-tie para a gala do filme - uma gala pela paz. O glamour que cerca a dupla pode predispor a um certo preconceito da crítica. Nem Angelina nem seu filme merecem. Clint Eastwood, que a dirigiu em A Troca, já disse que ela é durona. Angelina fez o filme que quis - sem floreios de direção, sem diálogos em inglês, com atores locais. Seu olhar é duro sobre a sangrenta Guerra da Bósnia. Entre 1992 e 95, as forças sérvias praticaram a violação de mulheres como uma política de Estado. O assunto já foi tema de um filme premiado em Berlim - Em Segredo, de Jasmila Zbanic. Por que voltar a ele?

Na Terra de Amor e Ódio narra a história de uma pintora bósnia, de origem muçulmana, que se envolve com um integrante das forças sérvias. Os dois se conhecem numa balada. As cenas iniciais passam-se numa Sarajevo que parece um paraíso étnico, ou pelo menos um local em que as diferenças coexistem com tolerância. A bomba que explode na balada põe fim ao que promete ser uma convivência idílica. O próprio reencontro de Ajla e Danjel sela um novo tempo. Obcecado por ela, Danjel a mantém como prisioneira privilegiada. Fazem sexo, e ela gosta, o que intensifica a complexidade da situação.

Angelina Jolie admite que foi muito influenciada por Michael Winterbottom, com quem fez O Preço da Coragem, em 2007. "Não tinha o objetivo predeterminado de fazer um filme, mas sempre fui muito curiosa e, no set, gosto de observar como os homens dirigem. Digo os homens porque a maioria dos diretores com quem trabalhei pertence ao sexo masculino. Michael é um caso especial. Ele procura intervir o mínimo na ação. Cria uma realidade que se assemelha muito à que retrata. Foi o que quis fazer aqui."

Zana Marjanovic, que faz Ajla, tentou treinar seu inglês, convencida de que o filme seria nessa língua. "Angelina me disse que relaxasse. Só faria o filme no idioma da Bósnia, e com atores locais. O que a motivou foi a força dos relatos de estupros que ouviu, como embaixatriz da ONU. Ela dizia que, antes mesmo que a fala das mulheres lhe fosse traduzida, ela já havia entendido tudo por conta do desespero, da entonação da voz, da crispação das mãos, da angústia no olhar. Durante as cenas, me pedia muito que representasse com os olhos e as mãos. Às vezes, me impunha a imobilidade e o silêncio."

Em Segredo via o problema do ângulo da mulher. Angelina quer refletir os dois pontos de vista, dela e dele. Muitos críticos acharam que a diretora errou ao fazer seu protagonista masculino encarar a própria culpa. Ela retruca - "Era o único sentido de fazer o filme. Se trato da violência contra a mulher, praticada pelo homem, é preciso que ambos os lados se conscientizem. Só o protesto da mulher não chega. O homem tem de mudar."

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