Visconti tradicional e moderno

Pinacoteca revê trajetória do pintor em mostra com mais de 200 de suas obras

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2011 | 03h09

A obra do pintor Eliseu Visconti (1866-1944) ficou, por muito tempo, "no limbo", diz o historiador de arte Rafael Cardoso. "Existem diferentes modernidades e a Semana de 22 varreu tudo o que aconteceu antes", explica. Um artista "presentista", como ele mesmo se definiu em 1926, Visconti estava comprometido, antes de mais nada, com o seu tempo e com a sua pintura. E a retrospectiva Eliseu Visconti - A Modernidade Antecipada, que a Pinacoteca do Estado inaugura amanhã, coloca em perspectiva, por meio de um panorama amplo, as criações que o artista realizou entre 1890 e 1940, buscando, assim, dimensionar a obra do pintor em meio à "epopeia de modernização do Brasil".

Formalmente, a produção de Eliseu Visconti nunca se tornou modernista, manteve-se figurativa. O artista não estava interessado em adentrar nas revoluções, mas sim em se concentrar no ato pictórico, misturando, sutilmente, técnicas e estilos diferentes (entre eles, o acadêmico, o impressionismo e o simbolismo). "Ele estava a todo momento pesquisando, era moderno sem agredir o tradicional", afirma a historiadora Mirian Seraphim, especialista no trabalho do artista. Mais ainda, o pintor produziu obras no campo das artes gráficas, artes aplicadas e do design, antenado às correntes figurativas do art nouveau e do arts and crafts do início do século 20.

Desde 1949, quando o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) do Rio realizou uma retrospectiva de Eliseu Visconti, uma mostra desse tipo não ocorria no País. A exposição de agora nas salas principais da Pinacoteca do Estado reúne cerca de 220 obras do artista, entre pinturas, desenhos, cerâmicas e documentos. A maioria das peças pertencem a colecionadores privados - o MNBA é a instituição que tem o maior acervo público de criações de Visconti, cerca de 20 (e o museu receberá a retrospectiva em 2012). Como diz Mirian Seraphim, que em seu doutorado, defendido em 2010, catalogou 501 obras do pintor, a realização da atual mostra já está contribuindo para uma valorização ainda maior de trabalhos do artista no mercado de arte.

Consenso. "Eliseu Visconti foi muito pouco criticado entre os modernistas, havia um consenso sobre o valor de sua obra, mas ninguém sabia classificá-lo", afirma Rafael Cardoso, que assina a curadoria da retrospectiva ao lado de Mirian Seraphim e do neto do artista, Tobias Stourdzé Visconti. O pintor, que nasceu em Salerno, na Itália, mas chegou ao Rio ainda criança, por volta de 1873 , era um criador "querido" e respeitado a ponto de ter tido uma sala especial na 2.ª Bienal de São Paulo, em 1953 - a mesma que trouxe Guernica de Picasso. Frases de críticos e artistas de diferentes épocas estão presentes na exposição para reiterar o consenso crítico em torno de Eliseu Visconti, um mestre da pintura.

A exposição é feita de segmentos temáticos, que misturam cronologia e questões caras ao artista. A primeira sala é dedicada a um conjunto de obras sobre papel (estudos) e apresenta ainda duas pinturas da década de 1890, uma fase pouco vista, segundo Rafael Cardoso, do início da República. Nessas telas, Visconti retrata lavadeiras, mas como afirma Mirian, não existe no pintor o que seria o ímpeto de falar de uma "temática social". "A pintura dele é do que ele vivencia, do que está ao seu redor", diz.

A segunda sala tem como destaque uma extensa série de pinturas de nus, obras nas quais Visconti se mostra moderno. Nu Masculino, óleo sobre tela de cerca de 1894, representa um homem de costas, no contraluz, e em outra pintura, o artista não esconde os pelos pubianos de uma garota.

Outras passagens importantes da carreira do pintor se seguem ao longo da exposição. Um segmento com as obras de design e artes aplicadas (leia mais abaixo), que foi tema de uma exposição apresentada recentemente no Rio e na própria Pinacoteca, está reunido em uma sala. Mas há, ainda, as pinturas de tom impressionista que Visconti produziu em Saint-Hubert, na França, onde viveu entre 1916 e 1920, os seus retratos de sua família e as pinturas que representam sua vivência em Copacabana, no Rio.

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