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Visão geral e pessoal da China

Livro de Henry Kissinger mistura história e memórias ao tratar da China

Marcos Guterman, O Estado de S. Paulo

03 de dezembro de 2011 | 06h00

Henry Kissinger está em seu habitat no livro Sobre a China, que acaba de sair pela Objetiva. Além de exercitar sua expertise em relações internacionais, o ex-secretário de Estado americano é pivô da aproximação entre Washington e Pequim nos anos 70 do século passado. Sobre a China dá uma visão privilegiada desse momento excepcional de Kissinger - mas, antes disso, ele oferece uma perspectiva histórica necessária para compreender as atitudes chinesas, sempre tendo como contraponto o Ocidente. "Todo estadista precisa equilibrar a experiência do passado com as exigências do futuro", escreve Kissinger. "Em nenhum lugar isso foi mais verdadeiro do que na China que Mao e o Partido Comunista haviam acabado de tomar."

O passado chinês, mostra Kissinger, é incontornável até para um "colosso" revolucionário como Mao. A China imperial se enxergava como a única civilização da Terra - os demais povos eram "bárbaros". Essa fantasia durou até o século 19, quando a China se viu confrontada pelas potências estrangeiras engalfinhadas na corrida colonial. "Séculos de primazia distorceram o senso de realidade da China", diz Kissinger ao relatar a guerra com o Império Britânico, que apressou a queda do imperador celestial.

Mas a fragilidade demonstrada pela China não pode ser tomada pelo seu valor de face. Em suas constantes convulsões internas, milhões de pessoas foram mortas, e mesmo assim, depois de cada uma dessas tragédias, o país se recompôs, como se isso respeitasse uma lei natural. Ademais, a China viveu desde sempre sob ameaça de invasão, porque tinha uma força militar inferior à de vários "bárbaros", e no entanto conseguiu contornar esse problema por meio de uma engenhosa combinação de diplomacia e de estratégia de jogar os vizinhos uns contra os outros.

Kissinger mostra que os chineses nunca partem para o tudo ou nada, diferentemente dos ocidentais. Preferem a flexibilidade estratégica e vantagens parciais. Segundo os ensinamentos de Sun Tzu, o obscuro autor de um famoso livro sobre a "arte da guerra" citado por Kissinger, "a suprema excelência está não em vencer toda batalha, mas em derrotar o inimigo sem sequer combater". A aposta chinesa é minar os oponentes pelo tempo que for necessário - o que, para um país com história milenar, não é exatamente um problema. Mesmo Mao manteve a tradição, e sua política externa, como diz Kissinger, "devia mais a Sun Tzu do que a Lenin".

É a partir dessa perspectiva que Kissinger, como conselheiro de Segurança Nacional de Richard Nixon, começa a narrar a história em primeira pessoa. Ele organizou a visita do então presidente americano a Pequim em 1972, com o objetivo de enfraquecer a URSS, e constatou que, diferentemente do pedantismo do bloco comunista soviético, a hospitalidade era "um aspecto da estratégia" chinesa. O sucesso da aproximação foi tamanho que, segundo Kissinger, os chineses não conseguiram entender por que Nixon, que abriu os EUA à China, foi "destruído" dois anos mais tarde - uma referência a Watergate. Mao atribuiu o episódio a "reacionários".

Com a morte de Mao, em 1976, uma nova China começou a ser construída. O governo de Deng Xiaoping levou ao paroxismo a mistura de reformismo e tirania, a ponto de deflagrar forças de contestação que só a violência extrema poderia conter. Nesse ponto, Kissinger revela seu grande apego à razão de Estado, porque ele consegue encontrar justificativas para o massacre de opositores do regime chinês, em 1989, na Praça Tianamen.

Kissinger argumenta que as revoltas "ganharam impulso próprio conforme as manifestações escapavam do controle de seus atores principais". Ou seja: ele vê equivalência entre lados totalmente desiguais - o que estava armado e o que estava desarmado. Em seguida, Kissinger responsabiliza os manifestantes, ao dizer que a "ocupação da praça principal da capital do país, ainda que completamente pacífica, é também uma tática para demonstrar a impotência do governo", levando-o a "atos intempestivos".

Kissinger admite que "não existe discussão sobre o desenlace" da crise, mas volta a relativizar o evento ao qualificar o massacre como simplesmente uma "ríspida supressão do protesto" e ao dizer que a repressão foi "vista na televisão" - quando se sabe que a maior parte dos dissidentes foi morta longe das câmeras, em número jamais revelado.

A geração de poder chinês pós-Deng, diz Kissinger, está mais para Bismarck que para Mao, no sentido de que o país, como manda a Realpolitik do chanceler alemão, busca obter segurança de que os solavancos internacionais não o ameacem, tornando-o cada vez mais impermeável às pressões externas. Ele termina o livro comparando a China atual justamente à Alemanha do século 19, um país recém-unificado e em franca expansão que obrigou o restante da Europa, sobretudo o Império Britânico, a alterar seus cálculos políticos. O fenômeno gerou um tipo de equilíbrio de poder baseado em "ameaças que se contrabalançam" - situação que desembocou na 1.ª Guerra.

"A história vai se repetir?", pergunta Kissinger, substituindo a Alemanha pela China e a Grã-Bretanha pelos EUA. A ascensão chinesa à categoria de superpotência é um fato. Essa força se manifesta como hegemônica no Pacífico, o que afeta diretamente os EUA, e isso pode significar um enfrentamento do tipo "soma zero" - se um lado ganha, o outro necessariamente perde, jogo que deflagrou a guerra na Europa. Mas a China, acredita Kissinger, enfrenta problemas domésticos de tal magnitude, com seus 150 milhões de habitantes abaixo da linha da pobreza, que não deve se lançar tão cedo numa busca pela dominação mundial. Ademais, China e EUA sabem que precisam um do outro, mesmo que a cooperação entre sociedades com "diferentes versões de excepcionalismo" seja "inerentemente complexa".

SOBRE A CHINA

Autor: Henry Kissinger

Tradução: Cassio de Arantes Leite

Editora: Objetiva

(576 págs., R$ 54,90)

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