Virtuosismo instrumental domina Copa Fest, no Rio

O cenário era simbólico para um festival de música brasileira: o clássico hotel Copacabana Palace, embrenhado na história musical do País desde o surgimento da bossa nova. Sua grande sala de eventos no 2.º andar, com o ar condicionado a todo vapor, abrigou, de quinta até a noite de sábado, a 5.ª edição do Copa Fest, encontro idealizado pelo poeta e letrista Bernardo Vilhena e com uma programação centrada no virtuosismo instrumental: Eumir Deodato, Kassin e seu coletivo Magnética Intergaláctica, o grupo Shinkansen (de Toninho Horta, Liminha, Jaques Morelenbaum e Marcos Suzano), Pepeu Gomes e banda e o baterista Wilson das Neves. Gente de época e escolas das mais diferentes que, lado a lado, atualizam o mapa de um meio difuso e ainda visto como de pouca influência em audiências maiores.

AE, Agência Estado

06 de novembro de 2012 | 11h24

Assim como o rock decretou sua liberdade e partiu para o tudo é possível desde a revolução digital de 2000, boa parte da música instrumental brasileira vista nestes dias também pode se considerar alforriada sobretudo de dois tiques nervosos adquiridos pelo início dos anos 90: ninguém é obrigado a seguir os padrões do jazz para ganhar notoriedade com um trompete nos lábios - um formato desgastado que consiste basicamente em apresentação de tema, improviso técnico e longo e retorno ao tema. Assim como, da mesma forma, não deveria ser necessário o pagamento de tributos a sons regionalistas na concepção de uma proposta coletiva de música brasileira. Não seria a negação de bases e origens que sempre serão as mais ricas do planeta, mas uma possibilidade de se pensar também fora da caixa.

De todo o elenco, quem deu as cartas desse jogo com a maior elegância foi o impressionante coletivo do produtor Kassin, batizado Magnética Intergaláctica, e o combo all stars de Toninho Horta e Morelenbaum. São dois grupos de intenções distintas, mas que se libertam das reverências e da verborragia fazendo uma música nova e autêntica. A criação de temas e arranjos e suas sessões rítmicas dão passos largos para fora dos padrões.

Kassin, um assumido nerd dos estúdios, é também uma figura ímpar quando está no palco. Ao lado de um trio de metais, um segundo guitarrista (o também flautista e cabeça técnica do grupo, Felipe Pinaud), do tecladista peso pesado Lincoln Olivetti, de um dos maiores baixistas dos novos tempos, Alberto Continentino, e do baterista Stephane San Juan, Kassin tem uma capacidade invejável de desaparecer. Sua guitarra é discreta, colocada para que os outros se sintam bem. É um garçom de alma generosa a servir seus parceiros com uma base de efeitos e climas que não parece estar em lugar algum e que, ao mesmo tempo, está em todos eles. Seu talento para sustentar o coletivo o faz um gigante e seu cardápio foi dos mais interessantes. Kassin mostrou temas que compôs em 2006 para a trilha de uma animação japonesa.

O coletivo Shinkansen tem algumas amarras a mais na percussão de Marcos Suzano e parece se sustentar no susto de improvisos que muitas vezes funcionam e em outras revelam a falta de ensaios. Porém, sua proposta é igualmente inovadora ao usar a categoria sobretudo de Horta e de Morelenbaum na confecção de uma temática oriental, como os belos temas "Haikai" e "Sayonara in Naruto", outra vez distante das escolas clássicas. É um encontro de craques que só precisa de um pouco mais de tempo.

Pepeu Gomes, no sábado, veio com outras intenções. Fez o paredão mais pesado e rock and roll da série na noite em que a casa ganhou pista de dança em vez de mesas e cadeiras - embora Pepeu tenha feito música para ser vista, e não dançada. Pepeu ainda é um dos maiores guitarristas e o cara que, sem ser um tropicalista de formação, melhor resolveu o conceito proposto em 1968 por Gil e Caetano colocando Jimi Hendrix para dançar com Pixinguinha nas distorções de uma guitarra elétrica. Seu show é uma explosão de volume que só incomoda até o segundo tema, quando ninguém mais resiste ao convite para embarcar em sua viagem. Wilson das Neves fechou a festa com o set mais dançante. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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