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Virgílio portátil

Depois surgiram os aparelhos de GPS. Lembra-se querida leitora?

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2019 | 10h08

Onde quer que estejamos, atualmente, é difícil estar perdido. Fisicamente, ao menos. Se pensarmos em confusões mentais, talvez seja mais complicado do que nunca para alguém se encontrar. Minha questão neste texto começa prosaica. Quando era jovem e queria viajar sem o auxílio de uma agência de viagens, era preciso me preparar. Consultava mapas, guias, calculava distância até um posto de combustível ou restaurante. Não fazer essa preparação ou improvisá-la era possível em alguns lugares, mas, em outros, era correr enorme risco de ficar sem combustível no carro ou no estômago. Mesmo estudando muito, bastava um desvio na rodovia para que o desespero batesse. Onde estava? Depois daquela curva, onde é que vou parar?

Depois surgiram os aparelhos de GPS. Lembra-se querida leitora? Recorda-se o estimado leitor? Tinham softwares curiosamente feitos para enlouquecer destreinados, não atualizavam com facilidade, perdiam o sinal quando mais precisávamos deles. Por fim, o celular incorporou o trambolho que ficava dependurado no vidro ou console do carro, na forma de práticos aplicativos que respondem a comandos de voz e se atualizam constantemente. Salvo zonas sem rede, que no Brasil ainda existem, perder-se virou uma arte, um prodígio.

Bauman escreveu que duas condições básicas da existência humana são a liberdade e a segurança. A primeira é fundamental. Privado dela me reduzo a escravo e nisso a vida vira apenas luta pela sobrevivência. Sem segurança, por sua vez, seria impossível traçar planos, antever percursos, partilhar a vida em sociedade. Paradoxalmente, nenhuma experiência histórica conseguiu equacionar bem liberdade e segurança. Todas as vezes em que estivemos muito seguros, renunciamos a parte expressiva de nossa liberdade e vice-versa. Como aqueles pais que dizem que sonham que o filho cresça livre, mas monitoram o sono do bebê com câmeras para que ele esteja seguro. Farão adaptação dessa curiosa estratégia até a vida adulta do rebento. Os aplicativos de GPS fizeram o mesmo conosco. Tão seguros estamos da rota mais eficaz, que nem sequer checamos para onde ele nos manda ir. O aplicativo virou meu duque e eu, soldado raso, sigo o caminho apontado ainda que seja em direção a um desfiladeiro. Esse exemplo não é aleatório ou gratuito. Ocorreu, de fato, com turistas japoneses na Austrália.

A segurança das orientações dos mapas de bordo modernos tirou, contudo, nossa liberdade e até nossa consciência decisória. Se eu me perdesse nos anos 1970 ou 1990, não havia muito a quem culpar que não a mim mesmo: por que não estudei o mapa? Por que não segui as placas? Por que confiei na pessoa a quem pedi informações no posto? O atraso era meu. Fosse pelo aleatório da vida, fosse porque eu procrastinei e perdi a hora para sair de casa. Hoje, a culpa é subsumida. Posso avisar por aplicativo qual será meu atraso e comunicar que é porque houve um acidente no caminho. Tudo verificável imediatamente. Qual de nós, no início dos aplicativos, não desafiou o que dizia o GPS do smartphone? A voz dizia: “Vire à esquerda”. Minha voz da consciência redarguia: “À esquerda? Que loucura! O melhor caminho é seguindo reto; faço esse trajeto há anos”. Et voilà! Acabava por descobrir um enorme congestionamento que poderia ter sido evitado. Se para toda regra há exceção, o leitor e a leitora podem se lembrar, com orgulho, de algumas vezes em que venceram o desafio e ganharam preciosos minutos desviando do comando algorítmico. O incontestável é que, passados alguns anos, Pavlov comprova sua tese: tornamo-nos dóceis, treinados em obedecer à máquina. Ela erra menos do que eu. Há quem ponha no aplicativo o endereço da padaria vizinha de casa, pois a voz que nos guia se tornou uma companhia dentro do carro. 

Volte ao início do parágrafo anterior. Eu escrevi que nossa consciência decisória foi afetada. Parte do argumento eu desenvolvi acima. Quero inquietar o leitor e a leitora com uma pergunta antes de deixá-los em paz neste domingo. Uma coisa é seguir ordens e comando que nos deixam seguros por serem verdadeiros. “Vire à direita” é o melhor que posso fazer porque é verdade: se eu virar à esquerda, haverá o tráfego mais intenso que tomará meia hora de minha existência. Imaginemos que, se o GPS der o mesmo comando para todos os que estão na “autoestrada do sul”, conto fantástico de Cortázar, que narra um congestionamento inacreditável, mas que poderia ser um dia de feriado emendado na marginal em São Paulo, o que ocorreria? O lógico é pensar que a via mais desobstruída se entupiria. Logo, o algoritmo deve escolher uma porcentagem de pessoas que ouvirão a verdade: tal via está mais tranquila. Outras não ouvirão nada. Ambas obedecerão. Ninguém saberá quem comanda seus destinos. Todas apenas ficarão felizes. Como numa versão GPS da distopia de Orwell. No Inferno cotidiano, todos necessitam de um Virgílio ou, ao menos, de uma voz agradável dando ordens para você ir entrando em regiões cada vez mais estranhas. Boa semana e não se percam!

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