Vira bem quem escolhe melhor

É preciso ter critério para que a programação do evento, que começa às 18 h de hoje, não se torne um mais-do-mesmo

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

São Paulo é uma cidade que, como diz Caetano Veloso, quem nasce aqui "já acha que está no mundo". É verdade. Principal rota dos grandes shows internacionais e alvo cobiçado de artistas brasileiros de todos os cantos, tudo se vê por aqui nas centenas de teatros e casas de shows. Daí que montar uma programação com novidades para um evento como a Virada Cultural é desafiador. Esta sexta edição, que começa hoje às 18 horas e termina amanhã no anoitecer, não tem muito o que faça a gente vibrar. É tudo meio mais do mesmo.

A vantagem é não ter de bancar os amargos preços dos ingressos das casas noturnas. E mesmo shows que já se viu em lugares fechados funcionam de maneira diferente ao ar livre, de graça, para multidões. Isso é bacana. Momentânea e ilusoriamente, o centro da cidade ganha luz, alegria e movimento de festa.

Os shows. Há uma predominância de artistas veteranos, principalmente entre os internacionais. Bandas "que foram" de Frank Zappa e Janis Joplin fazem os dois primeiros shows na Av. São João. São duas incógnitas. Sem seus líderes, o que podem estar fazendo Grand Mothers e Big Brother & The Holding Co. mais de 40 anos depois? O mesmo se pode dizer dos Temptations, que tocam depois de Booker T. (este sim, revitalizado) no Anhangabaú.

Os dois maiores sinais de decadência e falta de criatividade da programação são as presenças de Double You, inconcebível num evento que se pretende "cultural", e o cover do ABBA, cujo produtor foi preso anteontem em Goiânia, por propaganda enganosa. Um mico antecipado.

A melhor opção para quem quer fugir do óbvio e ver novidades são os dois palcos da Av. Casper Líbero, só com artistas jovens e independentes. Nas imediações da Rua Mauá, concentram-se as novas e boas bandas de várias regiões do Brasil, como Caldo de Piaba (AC), Black Drawing Chalks (GO) e Nervoso e os Calmantes (RJ). A poucos metros dali, na altura da Washington Luiz, outros fortes expoentes da nova geração do pop brasuca, como Karina Buhr, Rodrigo Campos, Tulipa Ruiz e Mallu Magalhães, são garantia de bons shows. E, melhor, sem muvuca.

O palco da Vieira de Carvalho é sempre garantia de diversão, com bregas dos bons. Tirando Double You, vai ter o pioneiro da axé music Luiz Caldas, Arrigo Barnabé, o pândego Sidney Magal, Jerry Adriani e Wanderléa, a musa da jovem guarda.

Além de Luiz Caldas, outros bons baianos batem ponto na maratona no palco do Anhangabaú. Às 5h da manhã Edy Star repete o bem-sucedido show que fez no ano passado no palco dedicado a Raul Seixas. Doze horas depois, Letieres Leite traz sua sensacional Orquestra Rumpilezz. Outra raridade é Orlandivo, que se apresenta com o Clube do Balanço na República.

Absurdamente maior a cada ano, a Virada parece um misto de réveillon prolongado com carnaval concentrado, perdendo o sentido e fugindo do controle, como a Parada Gay. Pra que essa bizarrice de gente fazendo suspensões corporais na Galeria Prestes Maia? Fora a questão do lixo e da segurança, com flagrantes de perigo constatados pela reportagem do Estado em 2009. Não seria mais sensato fazer duas viradas por ano, menores e menos pretensiosas, ou readaptar a ideia e se estender por mais dias, como vem dando certo no Carnaval Multicultural do Recife?

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