Violla e Naum evitam a emoção barata

J.C. Violla e Naum Alves de Souza não cederam ao mais fácil para conquistar platéias, não enfileiraram truques de efeito certeiro nem armaram as ciladas que todo artista experiente sabe manejar quando deseja produzir emoção barata. Doze Movimentos para um Homem Só, espetáculo solo de J.C. Violla com direção de Naum Alves de Souza, em cartaz no Sesc Consolação, pode ser condensado em uma palavra: inteligente.Claro que quem acompanhou os mais de 20 anos de hiato que separam o começo da sua carreira e este espetáculo, vai se ligar a ele com um tipo muito especial de empatia. Porque é um presente poder perceber, por exemplo, como Violla dança Expediente com mais doçura do que antes e que essa abordagem revigora aquela excelente coreografia de Celia Gouvea, que sobreviveu à ação do tempo e continua pertinente ainda hoje. Ou reconfirmar, através da montagem fotográfica que ganhou ares de documentário de Valsa para 20 Veias, quão antecipadora foi esta criação. Ou verificar que a economia no uso das danças de salão significou mais que uma escolha elegante, uma vez que ajuda a esclarecer a estrutura eleita para dar vida a este projeto.Poderia ser um espetáculo de homenagem, poderia ser apenas uma visita egóica à sala da coleção de triunfos. Mas é, antes de mais nada, uma espécie de roteiro sobre a arte de ser contemporâneo. O que vale a pena observar é que a opção por reunir diferentes criadores acabou por colocar Violla e Naum na posição dos DJs de Doze Movimentos para Um Homem Só. Não somente porque as novas criações assinadas pela dupla Violla-Naum compõem-se organicamente com as de seus convidados - Adriana Grecchi, Roberto Ramos, Jorge Garcia, Miriam Druwe e Miguel Angel Zotto - mas, sobretudo, porque o modo como cada uma delas é apresentada as transforma numa espécie de repertório de um concerto. Porque aqui também o diferencial repousa na proposta de leitura trazida pelo intérprete.Naum e Violla optaram por um tecer entre citações e reprocessamentos (quanto mais familiaridade com a carreira de ambos, mais rico será o índice de referências) postos em diálogos com as propostas dos jovens coreógrafos especialmente criadas para um intérprete maduro e em pleno vigor. Vivemos tempos inéditos de disponibilização de conhecimento.O mundo todo ouve a mesma música, vê os mesmos filmes e vídeos e programas de tevê, lê os mesmos livros e jornais e revistas, quase em simultaneidade. O resultado mais imediato dessa contaminação de espectro viral se identifica na aproximação entre as línguas que os coreógrafos hoje falam. A disseminação da improvisação como recurso torna ainda mais densa esta paisagem de contaminações. É nesse contexto que Doze Movimentos para Um Homem só deve ser pensado para que se entenda o papel de DJs dos dois. Caso um desavisado adentrasse poderia supor tratar-se de uma obra autoral (e não de autoria coletiva, como é o caso), porque a distinção entre o autoral e o co-autoral foi exatamente o que entrou em crise nos últimos anos na dança contemporânea.Ou seja, quase que anulando a passagem de todos estes anos, mais uma vez Violla e Naum se mostram em sintonia com o tema do dia.

Agencia Estado,

07 de agosto de 2002 | 12h31

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