Violino que canta

Um dos discos mais instigantes da temporada sai das mãos de Simona Cavuoto

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h10

Quanto mais só está, mais um violino canta. A ideia de Willy Corrêa de Oliveira, decano dos cinco compositores brasileiros presentes no CD O Violino na Metrópole, aplica-se ao sentido mais amplo desta extraordinária aventura musical contemporânea. É um dos mais instigantes CDs de música brasileira dos últimos anos. Lançado este mês, apresenta obras recentíssimas para violino solo, interpretadas pela italiana Simona Cavuoto, radicada no Brasil desde 2005, onde integra a Osesp e se apresenta com o Percorso Ensemble e a Camerata Aberta fazendo música contemporânea.

A ideia deste CD, diz Simona ao Estado, "nasceu quando Marcus Siqueira me perguntou dos meus projetos pessoais. Fiquei olhando para o nada: depois da temporada da Osesp, com média de 3 a 5 concertos semanais, aulas e tocando no Quarteto Portinari, fiz uma sincera reflexão sobre como, envolvida numa grande estrutura sinfônica, esqueci minha existência como entidade musical própria."

É curioso que Simona, musicalmente educada na Itália, considere mais positiva a cena brasileira contemporânea. "Aqui me sinto mais livre para experimentar tanto as músicas europeias quanto as brasileiras. Os brasileiros são muito abertos à produção musical contemporânea. Me sinto mais lúcida e conectada com a atualidade do mundo estando aqui. Infelizmente, os músicos de lá com os quais tenho contato se sentem mal reconhecidos quando o trabalho musical está voltado para a música do presente."

Seguidores. 'Filhos de Willy' pode parecer forte ou redutor. Mas a impressão é esta mesma. Aos 73 anos, ele está rodeado de quatro 'filhos' musicais: Marcus Siqueira e Marcus Alessi Bittencout, ambos com 37 anos, Rodrigo Lima, de 35, e Mauricio de Bonis, que também não chegou aos 40. E - detalhe interessantíssimo - como canta o virtuosístico violino de Simona nas oito obras gravadas. É claro que todas lidam com técnicas expandidas. Mas é sintomático que praticamente todas partam, manipulem ou transfigurem os gestos primais, a retórica e os afetos do violino.

Outro ponto comum é o fato de eles escreverem com engenho e arte sobre suas obras, assumindo um novo papel. Até Beethoven, na passagem dos séculos 18/19, o mediador não existia: fazia-se música para agradar a todos os ouvidos. Mozart ouviu do imperador José II que sua música "tinha notas demais". Não se ofendeu. Beethoven foi o primeiro a se alforriar, ao afirmar que "o cérebro humano em si não é um produto vendável" (Willy escreveu um belo livro sobre este tema em 1979).

Beethoven também disse que "o que é difícil é bom". A partir daquele momento, surgia a figura do mediador entre a obra e o público. Os primeiros explicadores foram o dublê de músico e escritor E. T. A. Hoffmann (que escreveu sobre as estreias das sinfonias de Beethoven) e compositores como Schumann e Berlioz. Paralelamente, nascia a imprensa musical especializada na Europa.

Com maior ou menor adequação, os compositores hoje abrem novamente mão dos mediadores e tratam a explicação verbal de suas obras com o mesmo carinho com que as compõem, como atestam as preciosas notas do CD de Simona Cavuoto. Atitude correta. Os 3 Capricci Urbani, de Siqueira, ficam sensacionais quando você sabe que ele parte de Paganini para "retratar dois universos sonoros distintos: o espectro sonoro do violino advindo dos séculos 17 ao 19 e a nova profusão de sons, articulações e texturas advindas da estrutura física do instrumento."

No caso de Willy, a dupla função do compositor fica ainda mais virtuosa. Você ouve eletrizado a Arya per Yara ("presente carinhoso dele para nossa filha Yara", diz Simona) quando sabe que ele a concebeu ouvindo a Scheherazade de Rimski-Korsakov "e uma ideia ocupou-me, fixa: vislumbrava um movimento claro desde o agudo do violino baixando gradativamente até o grave, um longo arpejo florido". Ou em "Oh!, este viejo y roto violin!", inspirado por um poema do espanhol León Felipe: "Queria que o violino dissesse coisas alteradas, distintas, sim, poderia rumorejar, grunhir, que esbravejasse, mas desta feita não cantasse." Resumindo: quem ler os textos antes de ouvir a música vai se maravilhar com este solitário Violino na Metrópole magistralmente tocado por Simona Cavuoto.

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