Violência e História em <i>Os 300 de Esparta</i>, de Frank Miller

Você deve sentir a história. Você deve sentir o calor da violência. Isso e mais é o que está presente em Os 300 de Esparta (92 páginas, R$ 58), HQ de Frank Miller e Lynn Varley recém-lançada pela Devir. A obra chega com um formato tipo "wide screen", mostrando seu parentesco com o filme baseado na HQ, que deve estrear em 30 de março no Brasil e tem Rodrigo Santoro no elenco, como o rei persa Xerxes."Anunciação" parece ser um termo apropriado tanto por causa do filme como pelo conteúdo da história em quadrinhos. Ela narra os eventos que antecederam à segunda fase das Guerras Médicas (490-479 a.C.), entre Grécia e Pérsia, na batalha de Termópilas, em 480 a.C. Segundo a história, foi lá que 300 espartanos e mais 4 mil hoplitas (soldados gregos de outras pólis) liderados por Leônidas I resistiram heroicamente à investida de Xerxes e seus 250 mil homens. O principal registro desses eventos está nos escritos de Heródoto em As Histórias, timidamente referenciado como "leitura recomendada" ao final da edição da Devir. Miller faz certamente o que é chamado de "quadrinho de autor´. A marca de suas histórias é indelével. Muito menos do que histórias de "heróis", ele faz narrativas sobre a violência. Assim foi com Demolidor, Elektra e Cavaleiro das Trevas. Semelhante à maneira como Tarantino elabora um enredo, Miller é um ás em exacerbar a violência aos limites do absurdo. Sin City, sua mais extensa obra, é uma ode à anulação do sentido de moralidade. Há lá algum princípio de conduta dos personagens, assim como a modernidade parece oferecer um cardápio de doutrinas que vão da religião às ideologias políticas, passando pela auto-ajuda. Arbitrariamente escolhidos como um cardápio de fast food, esses valores encontram sua genealogia nessa história do autor. Necessidade de violênciaSe Sin City ("cidade do pecado") é o símbolo da decadência, onde o esvaziamento de qualquer virtude dá espaço para o caos dos impulsos mais hipócritas (por isso mesmo, mais honestos), em 300 de Esparta o autor parece tentar encontrar o sentido original de uma condição permanente da humanidade: a necessidade de violência. Quando a pura agressividade não é capaz de sustentar o enredo para um público exigente, Miller aponta na direção de um roteiro bastante seguro: a própria história. Leônidas e seus 300 soldados mais fiéis são retratados da forma quase lendária por meio da qual comumente são referidos os espartanos. Uma "nacionalidade" que se transforma em adjetivo só poderia ser um excelente produto, e Miller cumpre a tarefa com perfeição. Os espartanos são poderosíssimos, disciplinados, viris, altruístas em nome de sua terra. Sacrifício é o sinônimo de sua vontade; perseverança, o guia da sua existência. Seus inimigos, por outro lado, são a imagem de decrepitude. Dominadores arrogantes, a exuberância de sua indumentária é a marca de sua decadência. "Suas mulheres serão escravas. Cem nações cairão sobre vocês. Nossas flechas vão eclipsar o sol!", brada um ferido emissário persa diante dos espartanos. "Então lutaremos à sombra", é a única resposta que o soldado espartano é capaz de proferir. Presentes na HQ, não são palavras de Miller. Elas vêm da própria mitologia que cerca o evento. A precisão histórica com que são mostrados os cinco dias da resistência espartana nas Termópilas se resume à exacerbação de alguns pontos cardeais da historiografia. Qualquer estudante de História sabe que ela não é uma busca da "verdade", mas de compreensão dos fatos e sujeita a interpretações distintas. O que se torna relevante na HQ de Miller é a maneira como a chamada "cultura pop" retrata o passado. O registro histórico não é, portanto, o da Antiguidade Clássica, mas a maneira como a história em quadrinhos simboliza o passado dentro da experiência de um escritor e desenhista americano do século 20. Modelo de Estados UnidosEnquanto "símbolo" significa unificar (o contrário de "diabolos", dividir um em dois), Frank Miller reveste a brutalidade da guerra com um sentido para além da própria brutalidade. Não é por acaso que o autor salienta alguns termos que, embora naturais aos espartanos, são também comuns nas doutrinas norte-americanas. Sacrifício. Lei. União. Razão. Justiça. Eternidade. Numa observação atenta, a nação espartana seria o próprio modelo de Estados Unidos segundo a perspectiva do autor. Se não fosse um ínfimo e divertidíssimo detalhe. Em dada passagem, um soldado de Leônidas declara lealdade ao rei até à morte. "Eu não pedi. Deixe a democracia para os atenienses, garoto", ralha o soberano, lembrando quão efeminados eram seus patrícios da região da Ática. Resta saber se a versão da telona irá incluir ou não certas passagens convidando o espectador à experiência oferecida por Frank Miller. Mas é certo que o novo formato da HQ cumpre essa intenção. O leitor tem de correr o olhar atentamente em busca de detalhes em páginas amplas, quase sinestésicas. Recheada de significados, feita para um público ansioso, em Os 300 de Esparta a história deve ser vivida sob o suor do sacrifício e o peso de um escudo. Nem que seu preço seja a própria democracia.Para quem não se lembra, Frank Miller é autor de algumas das mais bem-sucedidas HQs do século 20, entre elas, Batman: O Cavaleiro das Trevas e Elektra Assassina, de 1986, a melhor fase da revista mensal do personagem Demolidor, entre 1980 e 1985, e Sin City, de 1991, que também virou filme em 2005, dirigido por Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, além do próprio Miller.

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