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Violência e dores nas obras de Botero

As obras da série Dores da Colômbia, do colombiano Fernando Botero, dos mais conhecidos e valorizados no mundo, são exibidas agora na Caixa Cultural de Brasília para o público, apresentando uma faceta mais politizada do artista sempre identificado como o pintor e escultor das figuras rechonchudas - ou gordinhas mesmo. O conjunto de 67 pinturas, desenhos e aquarelas não é novo, mas criado entre 1999 e 2004, e já exposto, em 2007, em São Paulo, no Memorial da América Latina, onde atraiu 25 mil visitantes em um mês de exposição.

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2011 | 00h00

Com essa volta ao Brasil, a mostra, que fica em cartaz em Brasília até 1.º de maio, vai percorrer uma longa itinerância, incluindo estadas por Curitiba, Rio de Janeiro e Salvador (na Bahia, em 2012). Suas obras pertencem ao Museu Nacional da Colômbia, em Bogotá, doadas à instituição pelo artista entre 2004 e 2005. Botero, nascido em Medellín em 1932, vive há mais de 40 anos na Europa, mas por meio dessa série estabelece uma relação direta com seu país natal, retratando cenas de violência e tortura envolvendo o povo colombiano.

Sendo assim, é uma menção deliberada que o artista faz ao contexto da Colômbia nessas obras: em cada cena retratada, ao seu estilo figurativo (os obesos estão sempre lá) e de cores alegres, fica implícita ou explícita uma situação tensa e complexa vivida por colombianos entre a guerrilha - afinal, é lá que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) fazem seus sequestros e atividades -, o tráfico de drogas e ações militares. "Longe de pensar em benefícios econômicos, o artista quer que as obras pertençam à nação e sejam um convite à reflexão sobre as trágicas circunstâncias que temos enfrentado nas últimas décadas", afirma, em texto, a diretora do Museu Nacional da Colômbia, Maria Victoria Robayo.

Exagero. Como já definiu o curador colombiano Santiago Londoño Vélez, Dores da Colômbia reúne o que seriam "testemunhos da barbárie". Gordinhas e gordinhos são representados amordaçados, vendados, amputados, como prisioneiros, mortos - e até sendo comidos por urubus -, chorando seus filhos assassinados, rondados por caveiras. Não há nada de humorístico nessas obras - não se referem ao mesmo Botero que satirizou um cânone da arte ocidental, a Mona Lisa de Da Vinci, pintando-a obesa. O exagero, enfim, é colocado nessa série, como já afirmou o artista, para enfatizar o que considera "um momento tão irracional de nossa história" - e, vale dizer, extrapolando a Colômbia e se referindo à América Latina e tantos outros lugares. Praticamente, na mesma época em que criou as obras de Dores da Colômbia, o artista havia se dedicado a outras cenas de violência, criando uma série sobre as torturas em Abu Ghraib, prisão iraquiana do Exército americano.

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