Vinterberg e seus irmãos

Autor dinamarquês narra outra história de família em Submarino, atração de hoje na repescagem

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2010 | 00h00

No Festival de Berlim, em fevereiro, o repórter mal teve tempo de observar, para Thomas Vinterberg, que seu novo filme, Submarino, que participava da competição, era como um recomeço. Com Lars Von Trier, o jovem Vinterberg - belo como um astro de cinema, e ele poderia fazer carreira frente às câmeras - foi um dos criadores do Dogma. Ele se consagrou rapidamente com Festa de Casamento, mas depois, cooptado por Hollywood, fez a constrangedora comédia O Amor É Tudo. Seguiu-se Querida Wendy, que tinha suas qualidades (e roteiro de Von Trier). Altos e baixos demais, e num período curto. Agora, espera-se, é definitivo. Vinterberg está de volta aos bons tempos com Submarino. "Eu sei", ele é o primeiro a admitir.

"Não me arrependo de meus erros, nem peço desculpas por eles, porque foram etapas importantes no meu processo de amadurecimento. Mas é bom estar de volta ao que parece muito mais condizente com o que deveria ter sido o passo seguinte de Festa de Casamento", ele disse durante encontro no Palast, o palácio do festival. É o seu filme mais pessoal, sem ter nada de autobiográfico. Trata da relação entre dois irmãos separados, ainda jovens, por uma tragédia que dividiu a família. Um é violento, bêbado e drogado. O outro é pai solteiro e luta para dar ao filho uma vida melhor - a infância que não teve?

Vinterberg esclarece que não é usuário de drogas, mas agradece ao amigo - Thomas, como ele - que o introduziu nesse universo, como pesquisa. "O que eu vi me deu uma percepção mais funda da fragilidade humana, da dor." Quando começou a trabalhar no projeto de Submarino, ele estava em plena ressaca do divórcio. "Me perguntava o que seria de nossas filhas (duas meninas)? Submarino nasceu desse medo - o de falhar com minhas crianças, de não ser um bom pai."

Há um anjo loiro em Submarino e é o menino, que concentra a promessa de esperança do filme. Ele ilumina o universo sombrio que Vinterberg desenvolveu a partir do romance de Jonas T. Bengstsson. O cineasta admite que é seu filme mais "escandinavo" - talvez por isso, Submarino tenha recebido o prêmio principal da Academia Escandinava de Cinema. "Existem elementos, se é que se pode dizer, de Shakespeare em Festa de Família. O rei morto, rei está nu, a família dividida de Rei Lear, a indagação existencial de Hamlet. Tudo isso é verdade, mesmo que pareça muito pretensioso, mas sou filho de um intelectual e ele me criou na admiração dos clássicos. Bengstsson e Submarino são mais embasados na realidade da Dinamarca, da Escandinávia. Uma história de queda e redenção, de ascese, como aquelas que (Carl Theodor) Dreyer gostava de contar."

Ele reconhece que Submarino deve muito aos atores e não poupa elogios a Jakob Cedergren e Peter Plaugborg. "Eles foram fundo na investigação de personagens que são difíceis, mas acho que isso é que é bacana. Se estivessem interpretando eles mesmos, seria fácil. A ideia aqui é ir fundo na vulnerabilidade e no sofrimento. É como se fosse necessário perder a cascas para renascer."

O diretor reflete agora sobre o que parece óbvio. "O Dogma morreu, é página virada, mas para nós todos foi muito importante. Surgimos como um grupo, uma geração cheia de ideias, querendo marcar o cinema. Se tentássemos fazê-lo individualmente, talvez não tivéssemos conseguido. Cada um seguiu seu caminho, está tendo de assumir seus limites. Mas ainda nos relacionamos. Lars, Suzanne Bier, eu. O problema é a novíssima geração do cinema dinamarquês, os órfãos do Dogma. Acho que eles enfrentam a pior crise da história do cinema no país."

QUEM É

THOMAS VINTERBERG

DIRETOR

Nasceu em 1969 e se formou em 1993. Seu curta de graduação, Last Call, concorreu ao Oscar. Em 1997, fez Festa de Família, primeiro do DogmaQ

SUBMARINO

CINE LIVRARIA CULTURA 1 - Hoje, às 14 h.

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