Vintage, mas ainda reluzente

Montado nos hits, com guitarrista que erra os riffs. E ainda assim o Peppers triunfou

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2011 | 03h08

Foi mais ou menos como naquele jogo em que o Reinaldo, artilheiro do Atlético Mineiro, jogou com uma perna baleada contra o Flamengo, em 1980. Tinha tudo para dar errado, certo? Mas foi mais um milagre do futebol.

O Red Hot Chili Peppers também entrou em cena anteontem à noite, no Anhembi, com uma "perna baleada": o novo e inexperiente guitarrista Josh Klinghoffer (substituindo o guitar hero John Frusciante, que saiu do grupo por conta de uma longa ficha corrida de excessos). Klinghoffer errou riffs simples, mostrou-se inócuo até a metade do show e não se investe de credenciais para permanecer no grupo. Mas, ainda assim, aquele baixo do Flea e a bateria de Chad Smith (além da voz em espantosa forma de Anthony Kiedis) fizeram a noite ferver na margem esquerda do Rio Tietê.

Flea é um monstro, eleva seu instrumento ao Olimpo do rock'n'roll. O descamisado baixista encheu de elogios um agregado da banda, o percussionista Mauro Refosco (que pilotava de cowbells a um berimbau). No começo do show, Flea disse: "Pelé! Kaká! Ronaldinho! Mauro Refosco!". Depois, o apresentou como um "brazilian handsome fucking badass" e tirou sarro da cidade natal do músico, Joaçaba. "Tem mais gente aqui essa noite do que na cidade inteira dele!".

O grupo abriu com Monarchy of Roses (do disco I'm With You, lançado em agosto), de cara uma canção nova, distorcida e que tem um estranhamento meio eletrônico - alguns efeitos eram pilotados lá do fundo por um sexto músico, Christopher Warren, nos teclados. A princípio, tanto o palco quanto os telões pareciam meio acanhados para a reputação e a história da banda, mas acabaram se mostrando OK.

A partir dali, o Red Hot enveredou por um caminho suave de megahits, com Can't Stop (do álbum de 2002, By the Way), Tell me Baby (do álbum Stadium Arcadium, de 2006) e Scar Tissue (do disco Californication, sucesso absurdo de 1999).

"Agora vamos tocar algo novo para vocês", disse Kiedis. E atacou Look Around, outra do novo disco I'm With You. O cantor vestia um fraque, boné com a inscrição Off! na testa e uma camiseta onde se lia: Red Hot Perú. Assim como a camiseta denunciava o lugar da América do Sul de onde vinham, também o português foi para o brejo antes do final. "Ahora, una nueva canción, Factory of Faith!", berrou Flea mais adiante. O solo de Klinghoffer em Tell me Baby foi de lascar. No final do show, alguns fãs mais afoitos já gritavam: "Frusciante! Frusciante!". Que, além de tudo, também sabia cantar nos vocais de apoio.

"Temos muita sorte de estar aqui", disse Flea, cuja química com Chad Smith e Kiedis é uma das coisas mais divertidas do rock system. Na plateia, para ilustrar sua capacidade de conversão, havia de músicos do Sepultura a neodivas da MPB, como a bela Marina de la Riva. Um trompete convidado aqui (de Gil), uma dança de correrias desenfreadas pelo palco ali, e os Red Hot mostraram que sua música não envelheceu. Mas não foram muito longe em seu repertório recente, ficaram na segurança dos velhos hits, que ensandeceram um público bastante adolescente.

As pessoas que estavam a pouco mais de 50 metros do palco estão surdas até agora com o impacto sonoro. O som estava furiosamente alto na área VIP. Mas, lá no fundão, havia apenas uma torre de som para o resto da humanidade - um vício do show biz nacional que parece ter vindo para ficar, sem nenhuma possibilidade de apelação.

O visual de emo vintage de Kiedis fez lá seu sucesso, assim como seu zelo pelas academias de ginástica - o homem parece um garoto, apesar dos quase 49 anos (faz aniversário no dia 1.º de novembro). "Mucho gusto, mucho amor!", disse Flea, antes de voltar para o bis, que teve três canções. Eles têm dois desafios pela frente até seu show no Rock in Rio, amanhã: ensaiar melhor o guitarrista e aprender a distinguir português do espanhol.

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