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Vinil 'perdido' de Lula Côrtes e Zé Ramalho volta às lojas

Redes brasileiras importam elepê duplo primoroso lançado em Londres pela gravadora Mr. Bongo

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2012 | 03h12

É possivelmente o mais caro e o mais raro disco nacional. Passou quase 40 anos sumido, mas agora pode ser encontrado em diversas lojas em seu formato original, em vinil, um elepê duplo. Trata-se de Pâebirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, gravado entre outubro e dezembro de 1974 na extinta gravadora Rozenblit (fundada em 1954 por José Rozenblit no Recife, Pernambuco). Logo após ter sido gravado, a sede da gravadora pegou fogo com o material dentro. Conseguiram salvar poucos exemplares, que passaram a ser disputados nos sebos como diamantes na savana sul-africana - chegaram a pagar US$ 4 mil (cerca de R$ 8 mil) por um LP autêntico, um preço maior até do que o alcançado pelo disco "proscrito" de Roberto Carlos, Louco por Você.

O próprio Zé Ramalho disse uma vez que a única cópia que tinha de Pâebirú era "um vinil pirata alemão". Por uma artimanha do "copyright" global, o disco duplo em vinil foi agora lançado numa edição especial de luxo em Londres, pela gravadora Mr. Bongo, e está disponível para venda em lotes importados nas lojas especializadas (a Livraria Cultura possui umas 20 cópias). A Mr. Bongo atua em Londres desde 1989 (surgiu na esteira da loja Daddy Kool's Reggae, em Berwick Street) e especializou-se em relançar avis raras da música - possui, no catálogo, discos do próprio Lula Côrtes, Flaviola e o Bando do Sol, Marconi Notaro e outros.

Pâebirú se tornou uma raridade por outros fatores além do incêndio que destruiu as masters. Zé Ramalho e Lula Côrtes, seus autores nunca quiseram fazer uma reedição. Lula morreu em março do ano passado (sua última participação musical foi no disco de Lirinha, tocando seu tricórdio, uma cítara marroquina, na faixa Adebayor).

Interessante ouvir um álbum do qual todo mundo fala há décadas e pouquíssimos conhecem. A psicodelia misturada ao senso de improviso jazzístico e aos ritmos nordestinos compõe uma antevisão musical rara. Nada igual foi feito antes ou depois na MPB. "Pâebirú" é uma palavra de origem inca que quer dizer O Caminho da Montanha do Sol. Os grafismos e os mistérios arqueológicos da Pedra do Ingá (situada em Ingá do Bacamarte, na Paraíba) um precioso sítio histórico, também são explorados no álbum, que abre com o tema da entidade mitológica Sumé (também nome de cidade do Estado).

Com eles no disco, estavam Robertinho do Recife, Marconi Notaro, Jarbas Mariz, Zé da Flauta, Geraldo Azevedo, Alceu Valença e o incrível Dom Tronxo, que acabou se tornando um guitarrista cult posteriormente. Na época, Lula Côrtes já tinha em seu currículo o álbum Satwa (1973). Zé Ramalho já tinha tocado com Alceu Valença, e trazia na bagagem a experiência de grupos de Jovem Guarda e ecos da beatlemania (como a banda Os Quatro Loucos).

O elepê duplo é dividido em quatro partes, cada uma dedicado a um dos quatro elementos da natureza: Terra, Ar, Fogo e Água. A faixa Harpa dos Ares é uma composição de Geraldinho Azevedo com Côrtes e Ramalho, e tem Dom Tronxo tocando sua guitarra. Zé Ramalho conta que ele vive hoje em uma fazenda em Carucaru, e que era um dos personagens mais loucos daqueles anos psicodélicos, à frente do grupo Dom Tronxo & As Borboletas Cor de Leite.

Em uma entrevista para o documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, no ano passado, Zé Ramalho continuou sem explicar muito bem por que manteve o disco impedido de ser relançado durante tantos anos. Mas falou do caso. "Quando Pâebirú foi lançado, há mais de 30 anos, na época em que saiu, apesar da cheia que aconteceu, ninguém falou nada sobre ele. Alguns álbuns foram mandados aqui pro Rio de Janeiro. Por que tantos anos depois? Deviam ter falado sobre isso naquela época. Eu acho apenas incrível que se vislumbre tudo isso em torno de um trabalho que já foi feito há muito tempo", afirmou.

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