Vinícius em verso e prosa

Musical revisita obra de Vinicius de Moraes, mas evita biografia do artista

Maria Eugênia de Menezes ,

03 de março de 2014 | 19h44

À primeira vista, o espetáculo Vinicius de Vida, Amor e Morte, com estreia prevista para sexta, se assemelha a outros da atual safra de musicais brasileiros. Para aqueles que resolveram dar as costas à Broadway e investir em produções nacionais, as biografias de artistas da MPB têm sido a principal fonte de inspiração. O movimento começou em 1998, quando o musical Somos Irmãs investigava a vida e as canções das irmãs Linda e Dircinha Batista, e se estende com força até hoje: o sucesso recente de Elis, a Musical, que chega a São Paulo em março, é evidência da longevidade do gênero.

A música popular, no entanto, pode se prestar a outro tipo de uso no teatro. E é isso que o diretor Dagoberto Feliz e a cia. Coisas Nossas resolvem testar em Vinicius. Nessa homenagem ao poeta e compositor, os dados biográficos ficam de lado. Ocupa o primeiro plano o processo criativo do autor. A gênese de sua poesia. Sua maneira de se relacionar com a arte, com o mundo e, especialmente, com as mulheres.

No cenário, a montagem já oferece ao público uma chave para a compreensão de sua proposta. Na cena inicial, que acontece fora da sala de teatro, os atores convidam os espectadores a adentrar em uma "casa", sem portas, janelas ou paredes. "Um espaço onírico", na definição do encenador. Lá, será possível confrontar-se com as muitas facetas de Vinicius: o romântico, o boêmio, o criador. Existe um lugar para o violão. A escrivaninha repleta de papéis e com uma garrafa de uísque sempre aberta. Um banco de praça para os encontros amorosos. Uma banheira – alusão ao lugar onde o escritor foi encontrado morto, em 1980.

Esse é o segundo espetáculo do grupo. Antes, também sob a direção de Dagoberto Feliz, eles lançaram Noel, o Poeta da Vila e Seus Amores. À ocasião, o texto era assinado por Plínio Marcos e vinha pontuado por 28 canções do compositor carioca. Personagens essenciais à trajetória de Noel despontavam no palco, entre eles Aracy de Almeida – sua grande intérprete – e o desafeto Wilson Batista. Naquela obra, a cenografia remetia a um cabaré e os episódios mais marcantes da trajetória do sambista iam sendo desfiados.

Na peça pela qual a cia. se aventura agora, o processo criativo foi distinto. Além de abandonar o viés biográfico, a obra não partiu de uma dramaturgia prévia, mas de um texto construído pelos próprios intérpretes. "É um espetáculo mais de sensações do que dados biográficos. Tem esse lado do delírio, do sonho", comenta Dagoberto, reconhecido principalmente por seu trabalho no grupo Folias D’Arte. O roteiro elege uma seleta de canções: das onipresentes Chega de Saudade e Minha Namorada até temas menos conhecidos como O Astronauta. Também lança mão de poemas e crônicas. Assim, quase tudo o que é dito durante a encenação foi escrito pelo próprio poetinha. Uma maneira de torná-lo uma presença constante em cena, ainda que nenhum ator encarne sua figura.

Passados apenas alguns meses do centenário de nascimento de Vinicius, o tom de celebração é inevitável. O que não necessariamente quer dizer reverência. Curiosamente, as situações políticas abordadas não destoam tanto do contexto contemporâneo. Versos que fazem menções às mulheres, porém, podem provocar estranhamento. E são, por isso mesmo, tratados com ironia. Afinal, não se concebe hoje que alguém diga que uma mulher deve ser "feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor/ E para ser só perdão". Para Dagoberto, esse tratamento "crítico" dispensado à obra do escritor não quer dizer que "a poesia dele tenha perdido força com o tempo". "Mas alguns dos temas nos quais ele toca são percebidos hoje de maneira diferente."

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