Vinhetas de uma violência política

Vista Para o Amanhecer no Trópico, de Cabrera Infante, tem traços de Swift e Borges

Leda Tenório da Motta, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

Toda a obra suntuosa de Guillermo Cabrera Infante parece feita para confirmar, por vias travessas, o binômio crítico literatura e sociedade. Tendo sido um dos líderes da revolução cubana, já em 1962 ele começa a desconfortar os correligionários, e em 1965 acha-se exilado em Londres. Falecido em 2005, nunca mais pôs os pés em Havana, cidade que, no entanto, lhe deve a chance de existir de modo absoluto na geografia imaginária da literatura universal, o que não é dado a muitas delas, e a que endereçou um de seus chistes mais faiscantes, no frontispício do livro chamado Havana Para Um Infante Defunto (1978). Estamos diante de um enredo de narrativa fantástica: um lugar em que foram realizados tantos esforços de alfabetização para que não se pudesse ler o melhor escritor ali surgido. Gulliver não deixaria de notá-lo.

Numa relação dramática dos títulos essenciais da novelística contemporânea, poderiam entrar todos os de Cabrera Infante. Mas, dadas as íntimas relações de exclusão mútua entre a boa literatura e a sociedade de controle que se estabelecem, neste caso, cite-se aquele que mais se presta a ilustrar o ponto, demonstrando mais completamente como e por que um governo não quer escritores. Trata-se de Vista Para o Amanhecer no Trópico (1974). Pequena história em vinhetas da violência política na ilha de Fidel Castro, saída direto dos relatos de Swift retrabalhados por Borges, desenvolve-se aí, com senso de progressão e consciência do caráter falado das ideologias, uma comédia de erros que vai da chegada dos brancos e da dizimação dos índios siboney até as fugas dos dissidentes do regime rumo ao norte, pelas águas cheias de tubarão do Golfo do México, passando por episódios militares desencadeados desde certo "quartel da montanha". De todos os tempos e índoles programáticas, esses são acontecimentos derrisórios, ainda que sanguinários, cheios de falsos profetas, revolucionários e sublevados que só o são dependendo do ponto de vista de quem olha, tanques de guerra que avançam sobre as províncias do país, uma das quais, aliás, ostenta um nome único no mundo: "Matanzas." Tudo disposto de modo a enfatizar o eterno retorno do mesmo e a formar um perturbador retrato de grupo dos patriotas.

Os estudiosos chamam a isso "infanteria", em alusão à marca inconfundível de estilo de Cabrera Infante. Mas podemos chamá-lo ainda de resistência pela palavra.

LEDA TENÓRIO DA MOTTA, PROFESSORA DA PUC-SP, É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE PROUST

- A VIOLÊNCIA SUTIL DO RISO (PERSPECTIVA)

VISTA PARA O AMANHECER NO TRÓPICO

Autor: Guillermo Cabrera Infante

Tradução: Josely Vianna Baptista e José Antonio Arantes

Editora: Companhia das Letras

(171 págs., esgotado)

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