Vingança do talento

Sem tentar imitar Zezé Macedo, Betty Gofman revive sua graça e seus dramas

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2012 | 03h09

Como convidar uma atriz para fazer um personagem que existiu de fato, e era caracterizada pela feiura, sem pôr em xeque a própria aparência, e ferir sua vaidade feminina? Betty Gofman não se sentiu ofendida quando o produtor Eduardo Barata a chamou para viver a comediante Zezé Macedo (1916-1999) em A Vingança do Espelho, sob a direção de Amir Haddad.

"Na hora em que desliguei o telefone, pensei: caramba, vou fazer uma mulher que não era considerada nada bonita!", conta Betty. "Mas eu olho no espelho e gosto muito de me ver. E se você olhar a Zezé antes de ela fazer aquela loucura no rosto (as cirurgias plásticas, de dois em dois anos), vai ver que era uma mulher interessante. Não era um ícone da feiura."

A Vingança do Espelho estreou quinta-feira na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, com sucesso - o preço ajuda: R$ 10, a meia a R$ 5 ("é mais barato do que estacionar o carro", brinca o produtor). É uma peça sobre a montagem de uma peça em homenagem a Zezé, encenada por uma companhia teatral.

Amir Haddad desde o início dos ensaios deixou claro que não queria que Betty imitasse Zezé, fosse nas caretas, na voz ou nos gestos. "Teatro é a arte do 'vamos combinar'", explica o personagem de Mouhamed Harfouch, o diretor-personagem.

"Teatro não é mimesis (mimetização), é poiesis (poesia)", acrescenta Haddad. "Só poderia ser a Betty. Ela não é atriz de carinha bonitinha, tem personalidade forte, não é uma fisionomia comum. O bom ator é aquele que não mimetiza. Ela não usa nem maquiagem e fica igualzinha. É tudo ilusão de ótica."

A ausência de vaidade na escolha de um papel deveria nortear todo ator, mas Haddad sabe que não é bem assim. A "dificuldade de se fazer arte num mundo que vive de imagem" está na peça na figura de Estela, a atriz vivida por Betty, que se opõe a Katia, personagem de Marta Paret, a loira bonita e rasa que só faz novela.

A trupe, que tem também Tadeu Mello e Antonio Fragoso, resolve homenagear uma Zezé reconhecida pela maioria dos brasileiros só pelo rosto esticado e o bordão "Só pensa naquilo", da Dona Bela da Escolinha do Professor Raimundo.

O espetáculo parte dessa imagem mais difundida, com direito à vinheta do programa de Chico Anysio na Globo. Passeia por toda sua biografia, da infância, em Silva Jardim, interior do Rio, às chanchadas. Era a coadjuvante preferida de Oscarito, chamada de "Carlitos de saias" por Grande Otelo. Fez 108 filmes e publicou quatro livros de poesia (começou declamando no rádio).

Magricela, baixinha, de voz esganiçada e infantilizada - sequela do trauma de perder o filho, bebê, depois de uma queda do colo da avó paterna -, Zezé só era chamada para papéis que exploravam seu visual estranho.

Ganhou o apelido de "empregadinha do Brasil", por ter feito muitos papéis de doméstica. De Vento em Popa, de 1957, com Oscarito, era seu filme preferido, porque interpretava uma socialite, e usava joias e roupas extravagantes. O grande amor, Victor Zambito, foi seu companheiro por 38 anos, até a morte.

Tudo isso está no palco e emociona demais a plateia. O trunfo da peça é a entrega irrestrita de Betty - que tem um Prêmio Shell pela comédia O Burguês Ridículo (1997). Estando com ou sem peruca ou figurino, ela faz rir e chorar com a mesma habilidade.

Foram dois meses de preparo. Betty só hesitara ao pensar no primeiro verão das filhas gêmeas Helena e Alice, de dez meses. Os ensaios foram na sala de casa, com bebês, gato e cachorro. "Zezé me escolheu. Temos várias coisas parecidas: somos atrizes, sensíveis, nos casamos mais velhas, amamos bichos... Era uma mulher positiva, mas tem uma tristeza que mora ali. Estou à vontade na pele dela, homenageando os comediantes todos, que são muito desvalorizados."

Com estreia paulistana dia 8 de março, no Teatro Vivo, A Vingança do Espelho continua uma série tributo a estrelas do passado, iniciada com A Garota do Biquíni Vermelho, sobre Sônia Mamede. A ideia é continuar com Consuelo Leandro, Ivon Curi, Zé Trindade e outros nomes da Atlântida e do teatro de revista.

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