Vinda de Cage a SP marcou músicos, poetas e público

Crítica: Anna Maria Kieffer

O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2012 | 03h07

Quando Cage, através de sua obra 4'33", chamou atenção para o silêncio, nada mais fez do que provar a sonoridade da vida. O compositor desembarcou em São Paulo, em outubro de 1985, a convite da 18.ª Bienal Internacional de São Paulo, da qual fui a curadora de música. Trazia uma pequena cesta de piquenique com alimentos, uma vez que, na época, seguia uma rígida dieta macrobiótica, a conselho de sua amiga Yoko Ono.

Na correspondência que antecedeu o evento, sugeri ocuparmos o espaço da Bienal com uma retrospectiva de suas obras, numa espécie de happening no qual vários grupos musicais se apresentariam por justaposição e superposição, dando ao público a oportunidade de ouvi-los separadamente ou não, de forma organizada ou espontânea, deixando o acaso fazer seu jogo. Em determinado momento, este sim, controlado por um grande relógio - todos os grupos parariam ao mesmo tempo, num silêncio de 4 minutos e 33 segundos, executando a obra mais conhecida do compositor. E durante esse tempo, ouviu-se, de início, os passos do público que caminhava pela Bienal depois as vozes que se perguntavam o que havia acontecido, transformadas aos poucos em sussurros e, finalmente, o silêncio possível, no qual o leve ruído provocado pelo vento na ramagem das árvores do Parque do Ibirapuera, se mesclava à sonoridade dos carros que passavam ao longe, à percussão de objetos eventuais e à própria respiração das pessoas.

Desse modo, tinha-se conseguido realizar a proposta musical desse compositor que mais do que um músico, foi um dos grandes pensadores da música e das artes do século 20.

Sua passagem, por São Paulo, deixou marcas indeléveis em músicos, poetas, artistas e público em geral. Sua presença, proporcionou a interação de criadores de outras áreas, através de espetáculos como Cage - Campos, no qual as peças que compõem Song-Books e os Mesostics de Cage, interagiam com a poesia concreta de Augusto de Campos (interpretadas por mim e pelo cantor alemão Theophil Mayer), além da participação expressiva de jovens músicos que hoje são referência em suas especialidades.

O compositor Emanuel de Mello Pimenta, colaborou por diversas vezes com a companhia de dança de Merce Cunningham, parceiro de Cage durante muitos anos; a pianista Beatriz Román tornou-se sua assistente e realizou uma tese de doutorado sobre o silêncio em sua obra; Caio Gaiarsa, que dirigiu Cage - Campos, é hoje um importante encenador de ópera radicado em Bruxelas, sem falar em músicos que continuaram - como intérpretes, professores e regentes, a difundir sua obra e a música do século 20, caso de John Boudler, Martha Herr, Álvaro Guimarães, além do regente Abel Rocha, que, na ocasião, coordenou as 12 harpas que executaram Cartão-Postal do Paraíso - segundo Cage, a obra composta aos 70 anos, para comemorar sua entrada na velhice.

Da mesma forma, músicos mais experientes, colaboraram para contextualizar a obra de Cage na história da música, caso do maestro Júlio Medaglia que regeu Parade de Satie - um dos compositores do passado admirados por Cage -, além de sua obra Renga, para 78 instrumentistas da Orquestra Sinfônica de São Paulo e do compositor Conrado Silva, que já havia mantido sucessivos contatos com Cage, inclusive como instrumentista, em festivais europeus, e que, realizou, em sua homenagem, Círculo Mágico-Ritual, um quarup eletrônico para 20 músicos manipulando, ao vivo, 20 sintetizadores de diferentes origens.

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