Villa no mundo

Ao mesmo tempo em que se realizava em São Paulo a Semana Villa-Lobos – louvavel iniciativa da Secretaria de Educação e Cultura do Municipio – tinha lugar, em Montevidéu, o Festival Latino-Americano de Musica, organizado pelo SODRE.

Alberto Soares de Almeida,

08 Abril 2011 | 17h38

Não parece necessario insistir nos meritos da “Semana”, acontecimento cuja cobertura já foi feita em tempo oportuno pelo noticiario e pela critica especializada. Já o mesmo não sucede com o festival uruguaio. E como as homenagens caseiras podem, diante dos cepticos, sugerir um certo espirito de indulgencia e parcialismo, convém que ouçamos também a voz internacional e insuspeita dos outros paises, procurando saber o que pensam eles a respeito do grande compositor brasileiro.

Nada melhor para isso do que transcrever o discurso de Alberto Ginastera – um dos maiores compositores da Argentina e da America – proferido na abertura do Festival do SODRE. Por falta de espaço, é parcial a transcrição abaixo:

“Com as vibrantes notas do Hino Uruguaio, que é para os povos irmãos da America um simbolo de liberdade e de paz, inaugurou-se este Festival de Musica organizado pelo SODRE e durante o qual, num gesto de confraternização artistica, serão apresentadas as obras dos compositores dos diversos paises de nosso continente.

Não é por acaso que este Festival se inicia com uma obra de Heitor Villa-Lobos. Assim o quiseram expressamente seus organizadores, a fim de render homenagem ao Maestro cujos setenta anos foram brilhantemente festejados em todo o mundo musical... Para mim é duplamente grato, na qualidade de fervente admirador e amigo do maestro, tributar aqui um calido testemunho de reconhecimento a este grande criador, que, há muitos anos, abriu a primeira rota para que a musica americana alcançasse um plano internacional.

 

Villa- Lobos é, sem duvida, um dos grandes criadores deste seculo e um dos maiores musicos da America, não somente pela originalidade e grandeza de sua mensagem, mas também porque representa de um modo total estas terras que habitamos...

A America dos conquistadores e dos Incas, a America dos Andes, do Mato-Grosso, dos Pampas e do Colorado, a America na qual uma das mais antigas civilizações do mundo deixou vestigios que podemos admirar ainda no Mexico, Peru ou Bolivia – não pode ser semelhante á Europa, onde os povos se desenvolveram lentamente e onde a cultura já possui algo de secular e definitivo. Com isto não pretendo negar a influencia européia em nossa formação cultural; creio que quase todos os nativos desse Continente procedem de imigrações européias e portanto participam de seus costumes e tradições. Mas, ao chegar á America e ai misturando seu sangue, o homem europeu começou a olhar as coisas de um angulo diferente, adquirindo um matiz novo. Já o disse o Maestro Carlos Chavez em artigo sobre a arte americana: “Somos um ramo americano da cultura ocidental. Importa insistir nisto porque tem havido duas posições extremas, a meu ver igualmente equivocadas: a indigena, que pretende fazer dos paises americanos nações exoticas e isoladas, e a hispanica, que nega ou menospreza o elemento historico-geografico local, em favor de um servilismo cego a outras regiões”.

Estas palavras reveladoras de Chavez definem claramente sua posição artistica, que é a de admitir uma diferenciação entre as culturas européia e americana. Do mesmo modo, todos os criadores da America que se têm destacado, seja no terreno das letras, da poesia, das artes plasticas ou da musica, conseguem uma expressão propria se se baseiam nessa dualidade de influencia. A Musica de Villa-Lobos, como a poesia de Walt Whitman ou de Neruda, a prosa de Steinbeck ou de Guiraldes, a pintura de Figari ou de Tamayo, é sempre um canto exaltado á terra americana. Sim, podemos dizê-lo sem vacilar, Villa-Lobos é um dos genios da America porque sua arte reune o elemento tecnico europeu á expressão autenticamente nacional.

Recordo que há vinte anos, quando eu era ainda aprendiz de compositor, ouvi pela primeira vez algumas obras de Villa-Lobos. Senti-me de pronto fundamente impressionado pela originalidade e pureza de sua linguagem. Depois, e durante muito tempo, Villa-Lobos foi para mim a resposta a muitas interrogações, essas eternas interrogações que se formulam a si mesmos os jovens que buscam seu meio proprio de expressão. E quando observamos como sua arte, essencialmente regional, adquire não obstante ressonancia universal, é que compreendemos bem a genialidade de sua contribuição. Toda a graça, a opulencia, a côr, a melancolia e a transbordante fantasia do Brasil se acham expressas nas obras de Villa-Lobos. A facilidade de criar melodias admiravelmente poeticas e o poder de conceber ritmos dispares, ás vezes obsessivos, mas habilmente empregados – assim como esse artificio tão seu pelo qual recria com seus proprios meios o sabor e o ambiente da musica popular – dão á musica de Villa-Lobos um carater surpreendentemente espontaneo e pessoal. Mas ainda que suas composições, mesmo as que pretendem ser eminentemente universais, tenham carater nacional, não se pode considerar Villa-Lobos como um musico localista ou folclorico. Muito se tem falado do folclorismo de Villa-Lobos. Eu acredito que é um musico pessoal e não folclorico. E o proprio maestro deu certa vez a resposta exata a quantos lhe falam desse aspecto de sua criação, dizendo: “O folclore sou eu!”. Nada mais certo, pois ainda quando o compositor emprega material popular brasileiro, o transfigura e assimila de tal maneira que passa a formar parte de sua propria linguagem.

A ele se poderia aplicar a observação de Mario de Andrade: “Se um artista brasileiro sente em si a força do genio, está claro que deve fazer musica nacional; porque como genio saberá fatalmente encontrar os elementos essenciais da nacionalidade”.

A obra de Villa-Lobos adquiriu proporções monumentais, pois consta de mais de 300 opus onde figuram operas, “ballets”, sinfonias, poemas sinfonicos, concertos, a serie das Bachianas Brasileiras e dos Choros, quartetos, trios, peças para piano, coros e canções. E esta lista interminavel poderia ampliar-se ainda mais, pois o maestro escreve constantemente e conserva, aos setenta anos, o mesmo impeto criador de juventude. Em todas estas obras se revela a prodigiosa imaginação de Villa-Lobos que o leva a inventar sempre: inventa melodias e ritmos, idealiza procedimentos harmonicos e politonais e até novas formas. A aqueles que criticam o aspecto formal de suas obras, seu ilustre compatriota Mignone respondeu que a forma nas obras deste criador deve ser conhecida, estudada e apreciada em relação a ele mesmo. Bem sabemos nós outros, compositores e pedagogos, que a forma não conta senão em relação a seu conteudo; e que, assim como uma fuga de Bach não é igual a uma de Beethoven, também devemos supor que certas formas tradicionais não se ajustavam á exaltação lirica ou ao transbordamento do maestro brasileiro. Daí surgirem outras formas, como os Choros ou as Bachianas, que abrem novos caminhos á musica da America.

Mas não quero prolongar mais estas palavras, nem transformar esta breve dissertação em estudo estetico. Apenas desejo dizer que a arte de Villa-Lobos perdurará sempre. E que seu exemplo pode servir de orientação não somente aos jovens compositores de sua Patria, mas também á juventude criadora da America, que se encontra em muitos caos confundida por obra e graça das “novidades”

Antonio Machado, em seus dialogos de Juan de Mairena, diz: “Em politica, como em arte, os novidadeiros apedrejam os originais”.

Desejo acrescentar que não nos devemos deixar surpreender pelos novidadeiros nem perder tampouco a faculdade de admirar os originais. Saber admirar e honrar nossos maiores é sinal de elevação cultural. Por isso admiremos Villa-Lobos e a todos os grandes criadores da America que nos precederam no dificil caminho da arte, a fim de que sua obra seja como um tocheiro, iluminando a trilha a seguir”.

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