Villa Lobos redescoberto

Festival Amazonas encena pela primeira vez no Brasil a íntegra de Yerma, ópera esquecida do autor

João Luiz Sampaio, ENVIADO ESPECIAL, MANAUS, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2010 | 00h00

A senhora lava a porta da "boite" Jet Set, que anuncia em uma placa improvisada "shows eróticos a excelentes preços", e parece alheia à ária de Mozart que soa ali perto, na voz de uma soprano. O céu rosado recebe aos poucos a noite, sem que o calor dê um mínimo de trégua. A chuva de toda tarde desta vez está atrasada. E um grupo de turistas alemães se diverte na calçada do restaurante ao lado, cuja especialidade é a costela do tambaqui, "a melhor do Largo de São Sebastião", garante a funcionária na porta.

A ária de Mozart vai e volta, saindo da pequena janela da escola - e, da paisagem tropical, nos transporta para o universo da música. Ali ao lado está o Teatro Amazonas, imponente no centro do largo. O cenário mudou muito ao longo de pouco mais de um século desde sua inauguração. O Rio Negro, ao fundo, já foi escondido pelos prédios construídos nos anos 70 e a paisagem do século 19, quando Manaus foi centro financeiro à custa do cultivo da borracha, sobrevive apenas nos detalhes das fachadas restauradas que circulam o largo.

E no teatro. Sua trajetória ao longo do século 20 foi conturbada. Depois de receber, nas primeiras décadas, artistas de todo o mundo, foi aos poucos abandonado e chegou aos anos 90 como depósito. Passou então por uma restauração, ganhou orquestra própria e um festival de ópera.

História. O evento inverteu a geopolítica do gênero no Brasil e fez do Norte nosso grande centro produtor. Entre os marcos, está a tetralogia O Anel do Nibelungo, de Wagner, apresentada no início dos anos 2000, atraindo público e crítica da Europa e dos EUA. E, no fim de tarde quente da última sexta, preparava-se para fazer história novamente, com a primeira montagem completa brasileira de Yerma, ópera escrita por Heitor Villa-Lobos nos anos 50.

A uma hora do início do espetáculo, a fila começa a se formar, dando volta no teatro. Depois do tambaqui, o grupo de alemães junta-se à pequena multidão. Eles viajam a São Paulo na manhã de sábado, mas resolveram não deixar passar a chance de conhecer o teatro, que viram no filme Fitzcarraldo, de Werner Herzog, antes de deixar a Amazônia. Um pouco para o lado, um motorista, encostado na sua van, conta que trabalha com refrigeração, mas nas horas vagas faz bico transportando turistas - acabara de deixar um grupo de venezuelanos na frente do teatro.

Primeira vez. A primeira da fila é dona Conceição, aposentada. Ela diz que não gosta muito de ópera, mas o neto vai cantar no espetáculo. Atrás dela, a pedagoga Maria do Socorro se intromete. "A senhora vai gostar. E o teatro é um patrimônio da terra, temos que prestigiar." Harnon, de 18 anos, conta que é a primeira vez que vai ao Teatro Amazonas. E, de Campinas, o estudante Gustavo de Carvalho se diz ansioso. Ele está viajando pelo Brasil há dois meses, ouvindo orquestras de todos os Estados. Guardou a visita a Manaus para a época da estreia de Yerma. "Eu li a peça de García Lorca, mas não gostei, vamos ver que cara tem a música do Villa." O sino da Igreja de São Sebastião marca 19h30 - e as portas do teatro se abrem.

Escondido atrás da escadaria que leva ao salão nobre, o cartaz relembra como tudo começou. "Amazonas Filarmônica, Concerto Inaugural, 14 de novembro de 1997". Na época, o maestro Julio Medaglia percorreu o Leste Europeu, oferecendo altos salários em dólar e o clima tropical a músicos de países recém-abertos ao capitalismo. Assim surgia a orquestra e o festival de ópera.

A realidade hoje é diferente. As cabeças loiras e os olhos azuis já dividem espaço com músicos de todo o Brasil, atraídos pela fama da orquestra, e uma primeira geração de artistas formados em Manaus. No palco, o cenário também mudou - cantores manauaras ocupam boa parte dos papéis das principais óperas do evento, inclusive com montagens próprias. "Apesar de seu caráter internacional, o festival precisou criar laços com a comunidade local", explica o maestro Luiz Fernando Malheiro que, formado no Municipal de São Paulo, dirige a orquestra há 12 das 14 edições do festival.

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