Wilian Aguiar/Divulgação
Wilian Aguiar/Divulgação

Villa-Lobos embala SP Cia. de Dança

Música do compositor serve de trilha e inspiração para 'Bachiana n.º 1' que estreia amanhã

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2012 | 03h10

Com Villa-Lobos, a música acadêmica ganhou o colorido de cantigas de roda, de repentistas e instrumentos do Nordeste. Em Bachiana n.º 1, peça inédita que a São Paulo Cia. de Dança apresenta a partir de amanhã, a música do compositor brasileiro serve de trilha sonora e inspiração.

Assinada por Rodrigo Pederneiras, reconhecido coreógrafo do grupo Corpo, a criação é uma mescla de estéticas bastante distintas. Assiste-se ao encontro do pendor clássico da companhia paulista com o estilo de Pederneiras: uma leitura contemporânea de formas populares da dança brasileira. Uma brasilidade imediatamente reconhecível, mas que não resvala nunca no exótico ou no folclórico.

"Não faria nenhum sentido para nós fazer uma coreografia igual à do grupo Corpo", acredita Iracity Cardoso, que dirige o grupo ao lado de Inês Bogéa. "O trabalho tem a marca do Rodrigo, mas ele usou toda a potencialidade da companhia." Potencialidade que pode ser entendida como apuro técnico e conhecimento da linguagem clássica.

Os três movimentos da primeira Bachiana serviram de esteio para que Pederneiras concebesse momentos de temperatura e tonalidades diferentes. "É uma obra de um período em que Villa-Lobos ainda tinha uma influência europeia muito forte. Combina toques de explosão, com outros de grande sutileza", observa o coreógrafo. No primeiro e terceiro movimentos, ele utiliza a força e os instantes de suspensão da música. "Os respiros são muito importantes para a coreografia, são momentos em que o corpo vibra, pausas em que existe uma movimentação sem fim", considera Inês Bogéa. Os bailarinos tomam amplamente o espaço. Carregam sinais da leveza festiva característica do coreógrafo, com movimentos que partem dos pés e dos quadris para espraiar-se pelo resto do corpo.

Reconhecido pela habilidade com que maneja a trilha sonora em suas criações, o coreógrafo imprime clima contrastante à segunda parte. Bebe na delicadeza e intensidade deste prelúdio para desenhar um lírico pas-de-deux. Em seu aspecto geral, a coreografia tende ao abstrato. "É a paixão expressa na música que serve como linha condutora", aponta Pederneiras. Neste duo, porém, se acentua algum contorno dramatúrgico. O casal de bailarinos personifica o encontro amoroso, desdobra no corpo suas aproximações e tormentos.

A equipe técnica que acompanha Pederneiras nessa obra é a mesma que o auxilia no Corpo. Além de sua diretora assistente, Ana Paula Cansado, seu filho Gabriel Pederneiras, assume a iluminação. Os figurinos são de Luiza Magalhães, que se vale de rendas e vestidos esvoaçantes para vestir os bailarinos.

Outras duas peças completam o programa da São Paulo Cia. de Dança. Serão apresentadas Supernova, trabalho de Marco Goecke que faz parte do repertório do grupo, e uma remontagem de Ballet 101, inédita no Brasil. Solo do canadense Eric Gaulthier, a coreografia aborda de forma cômica os princípios rígidos da dança clássica. "É muito raro encontrar humor na dança. Gauthier consegue fazer isso", diz Iracity.

Ao longo de oito minutos, um bailarino brinca com todas as 101 posições possíveis do balé. Nesse trajeto, faz menção a coreógrafos e balés consagrados. Segue os comandos de uma voz em off, que lhe exige rapidez e precisão nos movimentos, em ritmo cada vez mais acelerado.

Ao misturar a dança clássica com certa irreverência, a obra de Gauthier também se encaixa no perfil ambicionado pela companhia. Desde sua fundação, em 2008, o grupo busca combinar peças do repertório clássico mundial com criações de acento contemporâneo.

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