Vila-Matas e Javier Marías lideram turma da transgressão

Vila-Matas e Javier Marías lideram turma da transgressão

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

Os descendentes de Cervantes e Góngora ocuparão as livrarias brasileiras neste segundo semestre, todos eles com obras experimentais, como convém a subversivos literários. Já em setembro a Companhia das Letras lança o terceiro volume da ambiciosa trilogia Seu Rosto Amanhã, de Javier Marías, que o historiador inglês Peter Burke considera o melhor romance da década. Já foram publicados Febre e Lança (volume 1, em 2003) e Dança e Sonho (volume 2, em 2008). O terceiro chama-se Veneno y Sombra y Adiós e seu protagonista é um agente que trabalha para o serviço secreto britânico e foi amigo de Ian Fleming, o criador de James Bond. Mesmo assim, não se trata de um livro de ação, e sim de reflexão. Marías e Enrique Vila-Matas criam um espaço filosófico onde convivem o real e o inventado, ambos com uma linguagem tão particular e cifrada - como a de Góngora - que o leitor deve estar atento para descobrir onde começa a verdade e acaba a mentira nesses escritos.

A propósito de Vila-Matas, em História Abreviada da Literatura Portátil, que a Cosac Naify lança também ainda em 2010, o escritor catalão, nascido em Barcelona há 62 anos, fala de uma sociedade secreta supostamente criada na África em 1924, a conjura "shandy", da qual teriam feito parte García Lorca e Walter Benjamin. Esses escritores de "literatura portátil" tinham de manter o mesmo estilo de vida e, fundamentalmente, assumir a postura de pesos ligeiros da história literária. Inovadores, nômades e insolentes, eles seriam um pouco como Vila-Matas e o peruano César Vallejo, herdeiros do espírito transgressor que fez os espanhóis incendiarem a literatura dos séculos 16 e 17.

Tanto Javier Marías como Vila-Matas parecem dizer com suas mentiras que a conspiração "shandy" ou sociedades de escritores que se assumem diferentes de seus pares não podem mesmo sobreviver, pois o primeiro mandamento para ser um bom escritor é justamente o de ser fiel a si mesmo, embora isso não signifique abjurar influências. Se Vila-Matas alimenta sua obsessão por Hermann Melville (1819-1891), Javier Marías não esconde a fixação no irlandês Laurence Sterne (1713-1768), do qual traduziu A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, precursor da autobiografia ficcional.

O que diferencia esses grandes nomes da literatura espanhola contemporânea da vanguarda literária dos anos 1930 é precisamente a liberdade de usar a tradição anárquica do gênero picaresco de Guzmán de Alfarache sem se curvar à fidelidade nacionalista. Javier Marías, nascido em Madri há 59 anos, é anglófilo. Adora a Inglaterra, embora tenha crescido nos EUA. Lá dava aulas o seu pai - o filósofo Julián Marías, antifranquista (retratado numa falsa biografia do genitor do protagonista de Seu Rosto Amanhã).

Vila-Matas, também anglófilo, fundou a Ordem dos Finnegans, cujos membros são obrigados a venerar Ulysses e seu criador, o irlandês James Joyce. O escritor tem vários livros publicados no Brasil pela Cosac Naify, destacando-se O Mal de Montano e Bartleby e Companhia. Além desses, a Cosac Naify prepara a tradução de Dublinescas, que deverá ser lançado em 2011.

Diferente dos dois, a escritora Rosa Montero não faz literatura referencial nem reverencial. Cita poucos autores e prefere contar histórias de anônimos. Jornalista de formação, nascida há 59 anos em Madri, seu livro mais pessoal é A Louca da Casa, difícil de catalogar dentro de um gênero - um pouco ensaio literário, outras vezes ficção autobiográfica. E ela tem mesmo uma história para contar: nasceu numa família de classe média baixa e ficou tuberculosa quando criança. Salvou-a a literatura. No lugar de se queixar, pegou um livro aos cinco anos e não largou mais./ A.G.F.

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