Vik Muniz leva suas cores e estrelas a Veneza

O fotógrafo Vik Muniz, escolhido com o escultor Ernesto Neto para representar a arte brasileira na 49.ª Bienal de Veneza, leva para a mostra internacional duas séries de grandes imagens, Pictures of Color e Pictures of Air. Na primeira, ele esmiúça e reinterpreta o uso das cores em telas de vários pintores. Na outra, recria mapas celestes em diferentes datas históricas. Faz isso com o auxílio de programas para computador, técnica engenhosa e sua curiosidade pela percepção visual.Idéias sobre cores e astronomia já ocupavam o pensamento de Muniz há muito tempo. Ele acabou por realizá-las especialmente para a Bienal italiana, que será aberta no dia 10. O fotógrafo, selecionado para a exposição em abril, desenvolveu as séries em pouco mais de um mês. Criou as imagens em seu estúdio no Brooklyn, em Nova York, e fez as impressões finais em Paris, para facilitar o transporte até Veneza.Pictures of Color, composta por seis fotografias de 250 por 180 centímetros, será exibida no Giardini, espaço oficial para a representação brasileira na Bienal. Muniz e Neto também terão obras vistas no Museu Fortuny, em exposição que integra os eventos organizados para divulgar a arte brasileira paralelamente à realização da grande mostra. Ali estará instalada Pictures of Air, com oito imagens de dimensão idêntica à da outra série.Em Pictures of Color, o fotógrafo representa obras de Van Gogh, Monet, Mark Rothko, Yves Klein e Gerhardt Richter, que têm a cor como característica mais acentuada. A única imagem que não partiu de uma pintura é a do pintor americano Chuck Close, considerado o maior retratista do pós-modernismo. "O trabalho de Close é um dos que mais me influenciam", conta o fotógrafo. Close investiga a forma como o olho distingue a representação por partes. De perto, suas telas parecem abstrações, são apenas pequenos quadrados uniformes que ele pinta um por um. Quando o observador se afasta, o objeto representado vai gradualmente tomando forma. Como as obras de Close, Pictures of Color também remete aos milhões de pontos que compõem uma reprodução fotográfica. "A série é uma brincadeira com a escala cromática, uma forma de ´escrever´ cor", explica o fotógrafo. Para isso, ele usou o pantone, a tabela que traduz cada cor em valor numérico para reprodução fiel numa impressão. Na série, Muniz separou todos os pontos de todas as cores das imagens originais, que foram recriadas com o menor número de pontos possível para o reconhecimento das figuras. Essas foram então refeitas em colagens de papel, fotografadas e ampliadas, resultando na imagem final. Na última linha horizontal de cada uma está identificado o número de todas as cores usadas na composição. Em Pictures of Air, Muniz refez a posição das estrelas vistas 90 graus acima de diferentes lugares e em determinadas datas nas quais ocorreram fatos ou fenômenos significativos. Isso é possível graças a um programa de computador alimentado com informações precisas de longitude, latitude, horário do local, a posição e altura de onde as estrelas poderiam ser vistas. Na série, o artista lembra o Descobrimento da América, por exemplo, representando o mapa astronômico sobre Guanahani, nas Bahamas, às 2 horas do dia 12 de outubro de 1492.Todo o trabalho de Muniz, produzido numa carreira desenvolvida nos Estados Unidos, onde ele vive há quase 20 anos, poderá ser visto na retrospectiva que o Museu de Arte Moderna de São Paulo vai exibir em junho. No mesmo período, o artista terá exposição individual na Galeria Marco Vilaça. Ser escolhido para a Bienal de Veneza é, segundo Muniz, "uma coroinha de louro, um privilégio para um artista contemporâneo e, profissionalmente, um rito de passagem para ser bem-sucedido". Mas a escolha teve um significado pessoal muito maior para o fotógrafo. "Meu trabalho ganhou identidade brasileira e isso, para mim, é muito mais relevante", diz. "Posso ter aprendido com os americanos, mas minha arte é brasileira."

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