Vik Muniz invade São Paulo em dose tripla

Semana passada foi a vez da série Clayton Days, exposta no novo Instituto Cine Cultural; nesta quarta-feira é a Galeria Camargo Vilaça que inaugura mostra de Vik Muniz reunindo as novas obras expostas na representação oficial e na programação paralela da 49.ª Bienal de Veneza, em cartaz até novembro; na quinta-feira, finalmente, o MAM abre a tão esperada retrospectiva do artista brasileiro, radicado há quase duas décadas em Nova York, que se tornou uma das coqueluches do circuito internacional de artes.Para Vik, que veio pessoalmente orquestrar essas várias edições de seu trabalho, não causa espanto fazer uma retrospectiva aos 39 anos de idade. Pelo contrário, ele lembra que a primeira dessas exposições abrangentes sobre seu trabalho, em 98 no Internacional Center of Photography, em Nova York, só o ajudaram a organizar seu pensamento. "Em três anos produzi muito mais do que nos dez anos anteriores. Finalmente entendi o que estava fazendo", diz o artista, que gosta de se definir como alguém que pesquisa o poder da imagem e da memória na nossa sociedade. Quanto ao uso excessivo da imagem pela mídia, que às vezes chega a torná-las menos do que é originalmente, ele confessa que isso, ao mesmo tempo que o incomoda, o fascina.Apesar do teor crítico que alguns vêem em trabalhos como aquele em que desenha com açúcar crianças exploradas nas plantações de cana-de-açúcar do Caribe - série responsável por sua "descoberta" pelo grande circuito -, Vik não adere a um discurso de denúncia. Na verdade, ele se vê como uma espécie de romântico contemporâneo, que tem muito mais relação com o século 19 do que com a fotografia engajada do século 20. "Me vejo como uma espécie de Constable, um cientista visual. Só que a paisagem mudou. Em vez da escuridão impenetrável do que você não sabe, lido com algo transparente, quase holográfico. Romântico ou pós-moderno, a única coisa que sobra é a poética da impossibilidade", diz.As fontes de inspiração do artista são as mais variadas. Aliás, ele conta que está sempre desenvolvendo vários trabalhos ao mesmo tempo. Só agora, tem umas cinco ou seis pesquisas em andamento no ateliê, explorando materiais os mais diversos: massinha, gelatina, microscópios... O fato de ´elencar´ materiais e não conceitos é uma mera coincidência, já que o trabalho pode nascer por qualquer lado: pelo tema ou pelo processo.No início era escultor. Aliás, há uma única de suas peças no MAM, logo na abertura da exposição, organizada por meio de um duplo critério, temático e cronológico. Trata-se de um curioso esqueleto com nariz de palhaço, escolhida por ser a escultura que mais se "parecia" com ele. Mas aos poucos foi percebendo que o que lhe interessava era um determinado ponto de vista do objeto. "Não queria a escultura como tridimensionalidade, mas como idéia", explica.Desde então, ele vem manipulando elementos os mais diversos, como o gel de cabelo com que constrói as impressionantes cartas celestes da série Pictures of the Sky expostas em Veneza e na Galeria Camargo Vilaça - que retratam como estava o céu em momentos especiais da história como a Queda da Bastilha ou a explosão da Bomba Atômica -, lançando mão de uma série de truques fotográficos (como os que usa para recriar uma atmosfera mórbida e oitocentista em Clayton Days) ou recriando mitos como Pollock e Freud com calda de chocolate.Cheias de magia e do desejo evidente de seduzir o espectador, de conquistá-lo, suas obras se situam sempre entre o mistério (pouco é revelado a priori ao espectador em textos explicativos) e uma exibição total do processo de trabalho. É como se seguisse uma lógica teatral, explica Vik, lembrando que em seus trabalhos sempre estão em cena um ator (o material ou a técnica, por exemplo) e um personagem.Vik Muniz. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 10 às 14 horas. Galeria Camargo Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 3032-7066. Até 28/7. Abertura dia 27, às 20 horas. Retrospectiva Ver Para Crer. Terça, quarta e sexta, das 12 às 18 horas; quinta, das 12 às 22 horas; sábado, domingo e feriado, das 10 às 18 horas. R$ 5,00 (estudantes com carteirinha pagam meia/ maiores de 65 e menores de 10 não pagam/ grátis às terças e às quintas após às 17 horas). MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, Parque do Ibirapuera, portão 3, tel. 5549-9688. Até 12/8. Abertura na dia 28, às 19 horas.

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