Vik Muniz expõe no Whitney Museum

Um dos artistas brasileiros contemporâneos mais respeitados internacionalmente, o fotógrafo Vik Muniz começa o ano criando novas ilusões visuais que o destacam na arte produzida nos Estados Unidos, país onde vive há quase 20 anos. Ele é o primeiro brasileiro a ganhar uma exposição individual no Whitney Museum, em Nova York. Ali, a partir de hoje e até 20 de maio, serão vistas dez fotos em grande formato da série The Things Themselves: Pictures of Dust (As Coisas em Si: Imagens de Poeira), que ele fez especialmente para o Whitney. Nesse trabalho, o artista baseou-se em fotografias de esculturas minimalistas já exibidas pelo Whitney, usando poeira recolhida do mesmo museu para reproduzir as fotos em desenhos e depois fotografá-los. "O que me atrai na fotografia de esculturas abstratas é sua complexidade: é a representação de uma obra que só significa ela mesma, mas, ao mesmo tempo, essa obra é um receptáculo de significados dados por quem a observa", diz o fotógrafo. "Uma escultura minimalista é interessante pelo que se imagina que ela pode ser - e isso a transforma numa não-abstração", conclui Muniz. Fotografias dessas esculturas, no entanto, distanciam o espectador do objeto e assim, segundo ele, "capturam a pureza da abstração".A idéia de produzir o que Muniz chama de "a abstração da abstração" surgiu do seu interesse por esse tipo de fotografia e a lembrança de uma exposição minimalista que viu há alguns anos no Centre Georges Pompidou, numa época em que os empregados da manutenção do museu parisiense estavam em greve. As obras não eram limpas havia mais de dois meses e estavam forradas de pó."Achei aquilo tão bonito", lembra o fotógrafo. "Uma cadeira Corbusier, coberta de poeira, parecia uma escultura de mármore." Aos olhos de Muniz, o resultado do meio ambiente interferindo na criação artística mostrava a dependência do objeto autônomo naquele momento: "Ele só podia significar ele mesmo se tivesse alguém para limpá-lo."Decomposição - Ao ser convidado pela curadora de fotografia do Whitney, Sylvia Wolf, a produzir um trabalho para o museu, Muniz escolheu como tema as fotografias de esculturas minimalistas pertencentes ao acervo da instituição e de artistas que ele gosta, como Richard Serra, Tony Smith e Barry Le Va. Encontrou na poeira, que lembra decomposição e passado, o material para ajudá-lo a explorar o paradoxo da arte abstrata em sua tentativa de evitar contextualizações de tempo e lugar.Sendo este seu primeiro trabalho feito especificamente para um museu (embora várias de suas obras já estejam no acervo de diferentes instituições internacionais), Muniz levou a encomenda ao limite. Ele recolheu a poeira nas galerias e escritórios do Whitney, reproduziu as fotos das esculturas do acervo em desenhos que fotografou, para exibir suas imagens no mesmo lugar onde as obras originais foram expostas e fotografadas.A expressão "as coisas em si" do título da exposição refere-se a uma observação do fotógrafo Edward Weston, feita em 1924. Segundo Weston, a câmera deve ser usada "para representar a verdadeira substância e a quintessência da coisa em si, seja aço polido ou carne viva". As fotos de Muniz contradizem essa idéia.Em desenhos, esculturas ou pinturas que faz apenas para fotografá-los e, com tais imagens, desafiar a percepção visual do observador, Muniz usa sempre materiais prosaicos como arame, fio de linha, terra e açúcar. Todos têm relação com algum método de reprodução de imagens. O arame, por exemplo, faz alusão ao desenho linear surgido nas cavernas pré-históricas. O fio de linha refere-se ao desenho acadêmico, no qual se dá volume às formas, e à idéia da gravura.Quando passou a criar imagens de açúcar e terra, o fotógrafo estava pensando no próprio meio de expressão em que fez sua carreira artística, usando os grãos como os cristais de prata dispersos numa emulsão. A poeira, por ser mais fina e permitir mais detalhes, é comparável à alta resolução do que ele já fez com terra.Além da individual no Whitney, Vik Muniz também ganhou uma exposição especial em Atlanta. Reparté, a mostra que será exibida até11 de março na Atlanta College of Art Gallery, reúne diversos trabalhos dele ao lado de obras que as inspiraram e fazem parte da coleção do artista. Muniz é ainda um dos 15 artistas escolhidos para participar da 46.ª Bienal da Corcoran Gallery, em Washington, que pode ser vista até 6 de março.Sob o tema "Media/Metaphor" e apresentando obras de monstros sagrados da arte contemporânea, como Chuck Close, Nan Goldin e Gary Hill, a bienal examina diversas questões sobre como vemos e construímos nosso mundo a partir das informações que recebemos. Nessa exposição, Muniz exibe a série Pantheon I, um grupo de retratos de americanos famosos. Para criá-los, ele desenhou com tinta fotografias publicadas em jornais e livros, reproduzindo as retículas que formam as imagens nas impressões. Os desenhos foram fotografados e ampliados em grande escala, resultando em representações quase abstratas quando vistas de perto.Nas nuvens - Na última semana de fevereiro, o fotógrafo realiza sua primeira obra em espaço público, criando nuvens - literalmente - no céu de Nova York. Alguns dias atrás foi feito um ensaio do projeto: de repente, num céu de brigadeiro e graças a manobras de um avião de pulverização agrícola que dispersava gás, surgia acima do edifício Empire State o desenho simples de uma nuvem, parecido com o que é feito por crianças ao tentar representar um cúmulo. Como faz com seus outros desenhos, pinturas ou esculturas, Muniz pretende apenas fotografar suas nuvens. Elas fazem parte de outro projeto, no qual ele quer trabalhar sobre o movimento da mão do artista enquanto este produz uma imagem.O trabalho do fotógrafo é objeto de um documentário - Worst Possible Illusion: The Curiosity Cabinet of Vik Muniz - a ser lançado também no fim de fevereiro. Finalmente, depois de ter ganho cinco retrospectivas nos Estados Unidos nos últimos três anos, além de outras tantas na Europa, ele terá sua obra completa exibida no Museu de Arte Moderna do Rio (MAM-Rio), em março, e no Museu de Arte Moderna de São Paulo (Masp), em junho. Apesar de estar desfrutando o reconhecimento internacional há mais de uma década, Vik Muniz afirma: "Nada se compara a eu poder mostrar todo o meu trabalho no Brasil."

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