Vik e seu relicário de provocações

Relicário, exposição de Vik Muniz em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, traz uma faceta pouco conhecida do artista que se tornou nos últimos tempos um verdadeiro ícone pop. O que vemos nessa mostra é um Vik Muniz escultor praticamente inédito, mesmo que o termo escultura não pareça definir muito bem a ampla gama de objetos criados por ele como numa espécie de desafio lúdico e irônico.

Maria Hirszman, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2011 | 00h00

É como se cada uma das 30 obras exibidas fossem pequenos chistes, comentários ferinos ou anedóticos, emitidos com o intuito de provocar o espectador, fisgando-o por meio das mais diferentes artimanhas, que incluem, inexoravelmente, a sedução material, o choque semântico entre elementos muito distintos e a surpreendente maestria técnica que caracteriza a obra de Vik.

Muito já se falou sobre a utilização de referências típicas da arte pop pelo artista, que também já dialogou com outras grandes escolas da história da arte, como o impressionismo e o minimalismo. Nas obras reunidas em Relicário, no entanto, há um evidente flerte com procedimentos típicos do surrealismo e dadaísmo. O contraste entre elementos, o deslocamento de significados e a utilização do texto (o título) como elemento constitutivo da obra estão presentes em vários trabalhos, como em O Batismo do Monstro, uma delicadíssima e romântica camisola com metros de comprimento cuidadosamente dobrados sobre si e seis mangas em vez de duas.

A ironia descompromissada que marca trabalhos como a caixa de papelão à prova de balas, o sarcófago da múmia na forma de um gigantesco tupperware ou História da Iconografia Acidental - imagens de torradas que reproduzem a fisionomia de ícones como Che Guevara e Jesus Cristo - cede lugar em alguns momentos a comentários mais ácidos sobre a sociedade de consumo - tema caro ao artista e que está retratado no documentário Lixo Extraordinário, que foi indicado para o Oscar da categoria deste ano. A instalação feita com restos de bonecas descartadas, desmembradas e inseridas num grande armário de laboratório é de uma morbidez incômoda e mais crítica do que a média dos trabalhos reunidos na mostra.

Esse trabalho, no qual há ecos evidentes dos objetos construídos por Farnese de Andrade com restos de bonecas, traz à baila uma certa identificação de Vik Muniz com os mistérios e enigmas da ciência. Como um cientista maluco ou um etnógrafo capeta, ele passeia por esse mundo das catalogações, registros e desejo de ordem para produzir obras de grande poder sedutor. Universos díspares como fragmentos de bonecas, o choque entre culturas primitivas e a cultura de massas ou o estudo das borboletas constituem sua matéria-prima. Em Entomologia Gráfica, por exemplo, ele cria um maravilhoso e diversificado painel com centenas de borboletas aprisionadas.

O olhar do observador, atraído pelas cores e formas dispostas ali, leva algum tempo para perceber que não são insetos de verdade, mas reproduções de um grande ilusionismo cenográfico. A mesma ironia desconcertante se dá na série Flora Industrialis, um dos raros trabalhos a lançar mão da fotografia, técnica por excelência do artista, para retratar um ampla gama de flores. São delicadas naturezas-mortas, literalmente, já que somos informados pela legenda (e em alguns casos isso fica um tanto explícito pela imagem, como no caso do girassol) que são flores artificiais.

Clown. A identidade de cientista não é a única adotada por Vik Muniz nessa exposição, que tem muito de autorretratística. Soma-se a esse papel, formando como que uma tríade de personas assumidas pelo artista em seu percurso criativo, as figuras do mágico e - sobretudo nesses comentários escultóricos - do palhaço. A imagem do clown é representada pelo crânio com o característico nariz de bolinha, que ocupa lugar de destaque em Relicário e que, curiosamente, já havia aberto a grande retrospectiva que o artista realizou no MAM de São Paulo em 2001.

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