Vigor na brevidade

Vigor na brevidade

Linguagem é o trunfo do romance de Luiz Bernardo Pericás

LUIZ ZANIN ORICCHIO - O Estado de S.Paulo,

27 Julho 2012 | 18h39

O romance de Luiz Bernardo Pericás, Cansaço, A Longa Estação, provoca espanto no leitor. Trata-se de um texto breve, que talvez seria mais bem qualificado como novela, não fosse este um termo equívoco entre nós, demasiado associado aos folhetins televisivos. Fica sendo então um romance curto. Meras 98 páginas, no entanto bastante densas.

A história se passa num sertão um tanto indefinido. Estamos entre os séculos 19 e 20. As referências esparsas indicam que a República chegou faz pouco tempo. Nos ermos, o imperador de barbas brancas, como a efígie de um santo homem, estão ainda vivas. A terra é maltratada e fala-se em seca e sol, o que não chega a ser novidade.

Nesse meio, que sentimos áspero e brutal, é que os personagens se movem. Punaré, de um lado; Baraúna, de outro. Os dois sertanejos disputando as graças de uma certa Cecilia, a quem também chamam de Cicica. Numa vaquejada, há uma briga confusa e a faca de um atinge o rosto do outro, o que pede vingança e morte.

Eis aí a situação. Que pouco teria de original não fosse a linguagem eleita por Pericás para contá-la. O autor escolhe uma forma nada referencial para narrar essa história de pobreza, amor e ódio. A linguagem é ora popular ora erudita, como se buscasse uma mescla do falar do povo com a erudição com que um Euclides da Cunha descreve a saga sertaneja em Os Sertões. Algo também aparentado a Guimarães Rosa na busca de uma transcendência que vai além do registro regional. Tudo isso, sem maniqueísmo. Não é pouco - sobretudo para um livro tão curto.

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