Vigor e coragem em cena

Aos 86, Britto mantém-se no palco e estreia nova peça em junho, no Rio

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2010 | 00h00

Verdades. "Hoje, tenho a pretensão de saber quase tudo, mas nem por isso me sinto capaz de enfrentar qualquer texto”    

 

Memória é como poeira, acredita Sergio Britto. A camada mais inferior está assentada e praticamente nada se perde. Já a de cima é solta, facilmente levada pelo vento. "Como minhas lembranças do teatro são sólidas, precisas, não precisei fazer nenhuma pesquisa nem consultar anotações." O resultado é um impressionante passeio por boa parte da história do teatro brasileiro a partir da segunda metade do século passado.

Assim, aos pesquisadores, O Teatro e Eu oferece mais detalhes sobre a criação e os bastidores dos grupos e espaços cênicos mais importantes do País - como o Teatro Universitário, Teatro Brasileiro de Comédia, Arena, Teatro dos Doze, companhia de Maria Della Costa, Teatro dos Sete. Aos atores, Britto revela seus principais desafios, como os problemas de audição e com a voz, além dos obstáculos financeiros enfrentados especialmente quando a arte em geral sofreu com corte de verbas durante a presidência de Fernando Collor de Melo (1990-92). E, ao público em geral, detalha momentos particulares de sua vida.

"Decidi contar tudo na primeira pessoa, como uma confissão completa", comenta Britto, para quem ser ator exige uma paixão absoluta. "É necessário que o teatro seja a coisa mais importante de sua vida; se assim não for, teatro não é seu lugar."

A dedicação foi compartilhada por colegas com idêntica intensidade. É o caso de Sérgio Cardoso (1925-1972), ator enérgico em suas criações e que encenou Hamlet em 1948 ao lado de Britto. "Sérgio era frágil; depois me falou de um possível sopro no coração", narra. "Quando se emocionava no final dos espetáculos, desmaiava, e isso virou de uma certa forma um cacoete emocional." A morte repentina de Cardoso, quando fazia uma novela de TV, o deixou profundamente atordoado.

Ao longo da carreira, Sergio Britto descobriu as diversas camadas do fazer teatral. Ele conta que, em um primeiro momento, o ator acredita erroneamente saber de tudo; em seguida, descobre o que desconhece; finalmente, a terceira fase, mais realista, em que percebe a existência do que ainda precisa aprender e, pior, daquilo que não vai saber nunca, a terrível constatação das limitações. "Já passei por todas essas fases", observa. "Hoje, tenho a pretensão de saber quase tudo, mas nem por isso me sinto capaz de enfrentar qualquer texto, qualquer tipo de espetáculo."

Desafios. Mesmo assim, continua se aventurando. Como aconteceu na montagem de A Última Gravação de Krapp e Ato Sem Palavras 1, de Samuel Beckett, realizada no ano passado. A fragilidade imposta pela idade não foi capaz de impedir que ele exibisse vigor físico para expressar com imagens corporais a ideia da submissão do ser humano a um poder invisível. "Foi um dos melhores trabalhos da minha carreira, senti-me desconstruído em cena", comenta, lembrando ainda que, dos 16 prêmios conquistados, 6 foram por obras de Beckett.

A vida também é marcada por frustrações. Britto lembra sua tristeza por não ter interpretado um dos papéis que mais o apaixonam: Iago, de Otelo de Shakespeare. "Aquela vilania me impressiona e me seduz, mas nunca consegui vivê-lo no palco, o que já não será mais possível, por conta da minha idade", lamenta-se.

Engana-se, porém, quem vê sentimentalismo em suas palavras. Britto continua um homem de ação. Como prova, participa de Recordar É Viver, peça dirigida por Eduardo Tolentino, que estreia no dia 2, no Rio. "O teatro ainda me revigora."

Amigos de palco

Jô Soares:

Eu o conheci em 1957. Já era gordinho. Começou como ator conosco, pequenos papéis que ele defendia bem, mostrando, no entanto, que não era esse o seu caminho como artista.

Fernanda Montenegro:

Tínhamos sonhado uma Simone e um Sartre. Percebi que o espetáculo não ia ser como estava desenhado na minha cabeça, desisti e tive coragem de deixar Fernada criar sozinha o seu Viver Sem Tempos Mortos.

Cleyde Yáconis:

Nunca esqueço o início de A Longa Jornada do Dia Noite Adentro, em 2002. Cleyde tinha medo, um medo como eu nunca tinha visto em ninguém antes. Eu a acariciava, tentava acalmá-la.

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